senhor poeta desculpe mas deveria
por nascido em Cascais ser mais respeitador
você que tem olho para o brilho do brunido
nunca notou o inconfundiveloso ar
com que os testas-coroados esvoaçam a baía?
não lhe chegariam a si os dedos
das suas quatro curtas proletárias extremidades
para atingir o número de avenidas
que na sua simpática vila têm
nome de rei ou arquiduque-passa
graças a deus que os seus camariosos
têm sido ao presente bem nascida
e não se dimentique
tivesse o yacht areado noutra areia
anadaria agora o poeta aos polvos
sem aprender a usar gravata-laço
senhor poeta desculpe mas deveria
ser no que escreve um ponto menos grosseirote
ser mais à reverência e não causar
com o seu verso francamente vil, baixote
à hora do almoço do exílio ao domicílio
tanto alvoroço tanto quezílio tanto embaraço
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domingo, 22 de março de 2009
domingo, 8 de março de 2009
poesia de cascais #12 - Fiama Hasse Pais Brandão

DA COSTA DE CASCAIS
Aqui, na orla do mar, as cruzes
são sinais de pescadores perdidos
no fundo, mortos, quando buscam
o sal da vida. Em vez de a sua força
fazer ceder a vaga sob o anzol,
é a força do mar ou a paixão da vida
-- arquejante e morta --
que os puxa para um purgatório
de água revolta e de limos.
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domingo, 8 de fevereiro de 2009
poesia de cascais #11 - Vasco Graça Moura

lavadeiras
na estrada velha, perto de minha casa,
há um lavadouro de arcadas azuis. vejo,
às vezes, as mulheres lavando a roupa,
uma ou duas, não mais, pela manhã, de
jeans e camisola, raramente de lenço
na cabeça, raramente olhando para
os carros que passam. como o almada
negreiros tinha casa ali perto, pergunto-
-me se não será ainda uma representação do tipo
gare marítima de alcântara, como a nau catrineta,
o conde ninho, outra coisa qualquer do romanceiro,
esfregada entre água fria e detergente, apenas
para a cor local do sítio de bicesse, enquanto, de
certeza, as mulheres ouvem a lambada, o rap, alguma
rumba antiga ou cantarolam os indicativos dos
anúncios radiofónicos mais estúpidos do mundo,
e os carros passam e repassam, apertando a curva.
alguns desenhos do alamada poderiam explicá-las,
no ritmo íntimo do corpo, mas já sem arabesco integrador
de uma sucessão de gestos na memória colectiva,
mas já sem colorido, já sem alegria ou tristeza,
apenas como banalidade pobre do sítio de bicesse,
atafulhando sacos de plástico com a roupa, e faça sol
ou chuva, para alguém continuar de mãos gretadas.
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domingo, 18 de janeiro de 2009
poesia de cascais #10 - Levi Condinho
DEVANEIOS
As Tentações de Santo Antão do Bosch
nas Janelas Verdes
O Ornette Coleman em Cascais
Nós fornicando na mata do Cabeço de Deus
O Quintelas bêbado a beijar todos os amigos
Pierrot-le-Fou
Beijar bocas de mulher por aí fora
Eugénio de Andrade Herberto Helder
Cesário Verde José Gomes Ferreira
Paul Éluard etc. etc.
A Suzete a sorrir-me ao balcão
do Banco na Marinha Grande
Canto Gregoriano à meia noite
frente a uma garrafa de vinho
A minha avó a dizer-me que
o Django Reinhaardt era a música do demónio
-- tinha eu 16 anos
O António Serafim a descrever
uma caldeirada no Montijo
Porra que não vou ser capaz de morrer
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
poesia de cascais #9 - José do Carmo Francisco

L. C.
A tua loucura é assumida por todos nós em colectivo
Quando somos os teus leitores fiéis
À volta da máquina de fotocópias
Ou à volta da mesa na cervejaria
E quando em Cascais como se fosse Fátima
Se encontram os peregrinos de todo o País
E tu meu velho sacerdote passas horas a insultar
Todos aqueles fiéis pouco conhecedores da tua fé
Os teus livros circulam ainda fora do circuito
E não enchem as estantes dos bem instalados
Mas não te preocupa essa literatura
De professores de liceu à procura de antologia
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
poesia de cascais #8 - Fernando Grade

ROCHAS DA BAFUREIRA
«Que é o amor senão uma fera espiritual
feita de todos os animais carnívoros?»
(Teixeira de Pascoaes)
São três aves sobre o mar calminho, rés
ao vento que corre pouco, sol de cardos.
Já não trazem mortos nem sal no convés
os barcos que vejo, mas trazem leopardos.
Viúvas do mar, quem vos amaldiçoa
no país de limo, com sonhos à ré?
Sabres, lenços, lágrimas de bacalhoa:
não há bicho algum que morra jacaré!
Oh brumas de cal que pesco, cheiro e caço,
os meus beijos têm saliva de lacrau,
e as ondas que afago fazem lembrar o aço...
No areal em chamas, com pedras e paus,
há guinchos de vermes, larvas de sargaço
-- e o cio da gaivota tem sede de caos.
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Praia da Bafureira
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
poesia de cascais #7 - Joaquim Gomes Mota

Palace Hotel, piscina:
E tão fina
E tão leve
A graça dum corpo que flutua,
Entregue,
À carícia duma água nua.
Despida do azul-verde pano
Que veste o vasto oceano
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
poesia de cascais #6 - Dick Hard

CONTO DE FADAS
A princesa estava fechada na torre
como é lógico
Lancelot foi salvar a princesa
como também é lógico
Como era de prever
Lancelot teve de matar um dragão mau
para poder salvar a linda princesa
Por coincidência
a princesa era loura de olhos azuis
Lancelot era valente e dedicado
Contudo, não viveram felizes para sempre
nem tiveram muitos meninos
Lancelot decidiu sair dos contos de fadas
Tomaram um atalho
foram para um quarto do Intendente
Lancelot sodomizou a princesa
Cá fora, miúdos jogavam ao berlinde
um homem vendia jornais na esquina
e Lancelot sodomizava a princesa
A princesa gemia e suava
os miúdos jogavam ao berlinde
um homem vendia jornais
Saíram do quarto e foram jogar bilhar
fumaram uma ganza
e viram o pôr-do-sol no Castelo
A princesa já não tinha véu
vestia jeans
Lancelot usava um blusão de cabedal
Meteram-se num buggy
bazaram para o Guincho
beberam bagaços numa tasca
Caiu a noite
a madrugada não tinha um lindo luar
nem o Jack, o Estripador tinha encomendado nevoeiro
Era apenas
uma madrugada normal
azar...
domingo, 14 de setembro de 2008
poesia de cascais #5 - Branquinho da Fonseca

POEMA DO MAR E DA SERRA
Ó mar de que não sei nada
Nem vejo que desvendar,
És só a mais larga estrada
Para ir e voltar!
Eu sou lá dos montes
Que medem o céu,
Sou das frias serra onde primeiro o sol nasceu
E onde os rios ainda são apenas fontes.
Sou de onde as árvores falam
A língua que eu conheço,
Onde de mim sei tudo
E do resto me esqueço.
Lá, tenho olhar de estrelas a luzir
E tenho voz de guardador de rebanhos,
Passos de quem só desce p'ra subir,
Mãos sem perdas nem ganhos.
Contigo falo, ó mar,
se a lua vem do céu passear o mundo,
Tornando-te a planície do luar
Sem ecos nem mistérios de profundo.
Mas só lá sou eu da terra e a terra é minha,
Só lá eu sou do céu e o céu é para mim,
Ó serra aonde há tal serenidade
Que nada tem começo
Nem fim.
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sábado, 6 de setembro de 2008
poesia de cascais #4 - José Gomes Ferreira

(Nesse verão estivemos todos juntos na praia:
o Manuel Mendes e a Bá, o Chico e a Maria Keil,
o José Bacelar e a Maria Luísa, o José Rocha e a
Selma. E eu mergulhava no mar aos Vivas à República!)
Carcavelos.
«Aqui nesta praia amarela...»
tanto esperei em vão pelo princípio do mundo
com os pés a doerem-me
nas conchas de sangue nu dos tapetes...
Depois despia-me
e desafiava o mar
para sentir na pele
aquele frio antigo tão doce de alfinetes...
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terça-feira, 26 de agosto de 2008
poesia de cascais #3 - Lourdes Borges de Castro
RECORDAÇÃO
Quando eu era pequena
-- Nem mulher, nem criança: adolescente --
Sentia uma aversão forte e pungente
Por tudo o que era triste ou desse pena.
Não gostava de ouvir falar na morte
Nem de passar ao pé do cemitério:
A morte era pra mim grande mistério
E imaginava-a muito alta e forte...
Eu morava em Lisboa nessa altura
Mas tinha casa ao ano no Estoril,
E assim que começava o mês de Abril
Partíamos em busca de frescura.
Todo o fim de semana, sem excepção,
Ia toda a família descansar
Na pequenina casa à beira-mar:
Eu, meu Pai, minha mãe e o nosso cão.
O caminho mais rápido passava
Ao cemitério dos Prazeres; e eu
Para o não ver olhava para o céu
E para disfarçar ria e cantava...
Não era medo, não, o que eu sentia:
Eu era uma menina corajosa.
Mas nessa terra, triste e silenciosa,
Havia algo que eu não percebia.
Só hoje sei que essa aversão que eu tinha
Resultava da minha pouca idade:
Estuante de vida e mocidade
Achava a morte vil, feia e mesquinha...
Mas os anos correram e mudaram
Essa estranha maneira de sentir.
Hoje a recordação faz-me sorrir:
Foram já muito anos que passaram...
E quantas vezes eu fico a sonhar,
Num sonho sem calor, pungente e sério,
Que estou sozinha nesse cemitério
E que pra sempre lá quero ficar...
Quando eu era pequena
-- Nem mulher, nem criança: adolescente --
Sentia uma aversão forte e pungente
Por tudo o que era triste ou desse pena.
Não gostava de ouvir falar na morte
Nem de passar ao pé do cemitério:
A morte era pra mim grande mistério
E imaginava-a muito alta e forte...
Eu morava em Lisboa nessa altura
Mas tinha casa ao ano no Estoril,
E assim que começava o mês de Abril
Partíamos em busca de frescura.
Todo o fim de semana, sem excepção,
Ia toda a família descansar
Na pequenina casa à beira-mar:
Eu, meu Pai, minha mãe e o nosso cão.
O caminho mais rápido passava
Ao cemitério dos Prazeres; e eu
Para o não ver olhava para o céu
E para disfarçar ria e cantava...
Não era medo, não, o que eu sentia:
Eu era uma menina corajosa.
Mas nessa terra, triste e silenciosa,
Havia algo que eu não percebia.
Só hoje sei que essa aversão que eu tinha
Resultava da minha pouca idade:
Estuante de vida e mocidade
Achava a morte vil, feia e mesquinha...
Mas os anos correram e mudaram
Essa estranha maneira de sentir.
Hoje a recordação faz-me sorrir:
Foram já muito anos que passaram...
E quantas vezes eu fico a sonhar,
Num sonho sem calor, pungente e sério,
Que estou sozinha nesse cemitério
E que pra sempre lá quero ficar...
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domingo, 17 de agosto de 2008
poesia de cascais #2 - Ruy Belo

Praia do Abano (ou outra praia)
Vejo subitamente recuares até à tua infância
cruzares ruas montras onde passo agora
e sofro sem remédio não haver saída
em minha vida que não seja a tua face
isenta dos meus olhos vista só por ti
A bola é louca, boca anónima infantil
Ó árvore plantada indiferente de cidade
à mesa onde amarro a minha vida
e corro sem correr para nenhum lugar
distante donde estou como se lá estivesse
A cara e o cansaço e os cilindros: prece
Tu és agora uma criança inacessível para mim
e em nenhum país alguma vez te vi
Estou de novo comigo e sofro levantado não haver ninguém
até que enfim deitado eu cumpra a minha condição
e não houve pessoa a que eu fizesse mal
Vejo subitamente recuares até à tua infância
cruzares ruas montras onde passo agora
e sofro sem remédio não haver saída
em minha vida que não seja a tua face
isenta dos meus olhos vista só por ti
A bola é louca, boca anónima infantil
Ó árvore plantada indiferente de cidade
à mesa onde amarro a minha vida
e corro sem correr para nenhum lugar
distante donde estou como se lá estivesse
A cara e o cansaço e os cilindros: prece
Tu és agora uma criança inacessível para mim
e em nenhum país alguma vez te vi
Estou de novo comigo e sofro levantado não haver ninguém
até que enfim deitado eu cumpra a minha condição
e não houve pessoa a que eu fizesse mal
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
poesia de cascais #1 - Fernando Pinto do Amaral

Onde estás, minha vida em câmara lenta,
janela toda aberta onde procuro
o vento, a luz da noite? Onde estarás,
melodia cantada a soluçar
numa cama de grades? Onde estás,
olhar dessas visões em sobressalto.
Casal da Bela Vista, velho pátio
ao som da bicicleta? Onde ficaste,
infinito terraço da Alameda,
varanda cor-de-rosa da Parede
com o sol a morrer sobre Cascais?
Onde estás, corredor de São Filipe,
praia do Monte Branco onde outro eu
se lançava da prancha? Onde estarão
os risos desses primos transparentes,
as lágrimas acesas que brilhavam
como arco-íris de seda no meu rosto?
Onde ficou a última pergunta
em véspera de viagem? Onde está
o mapa dessa alma que foi espuma,
o nó dessa garganta submersa?
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sábado, 15 de setembro de 2007
3 poemas de Celestino Costa
Eu não sei o que este tem,
Leio-o sempre comovido
Faz-me mal e sabe bem.
Tires, Out. 1989
***
Dentro dum velho, a brincar,
Anda a criança de outrora,
No prazer de recordar
Vai entretendo o agora.
Tires, Julho 1989
***
A VIDA
Eu gosto tanto da vida,
E logo me calhou em sorte
Passar parte dessa vida
No território da morte.
Tires, Março 1990
A Minha Terra e Eu, Cascais, Associação Cultural de Cascais, 1992
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