sábado, 19 de julho de 2008

João Cabral


É um lugar-comum, mas nem por isso menos verdadeiro: com a morte de João Pedro Cabral, ocorrida no dia 12, o património histórico e cultural de Cascais fica mais pobre -- mas também mais vulnerável.
Pouca gente conhecia tão bem o concelho de Cascais e o seu património, em relação ao qual era de uma postura de defesa intransigente.
Tive o gosto de trabalhar com ele durante quatro anos, em condições não muito fáceis para si. O nosso relacionamento inicial não foi inteiramente pacífico. Ele era um osso duro de roer e eu, felizmente, não sou muito diplomata. Mas rapidamente as coisas se esclareceram entre nós: o principal interesse de ambos era a história e o património de Cascais -- a nossa história, o nosso património --, a sua defesa e a sua valorização.
Esses anos de trabalho, que resultaram em amizade, foram exemplares de lealdade, colaboração e enriquecimento mútuo.
Deixa-me saudades o João Cabral.
foto e evocação aqui

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Quando havia a Costa do Sol

A T., do Dias que Voam, postou uma magnífica prancha dos «Ecos da Semana» do Carlos Botelho, no mítico Sempre Fixe. Já lha pirateei para o acervo da Caverna.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Linhas de Cascais - José de Matos-Cruz

Em Cascais, de costas para a Cidadela e ajeitando a gravata, num auge solitário de virilidade, Rui Ruivo resistia, neurasténico, ao velório da monotonia e da cidadania.
O Infante Portugal e as Tramóias Capitais, s.l., Kafre, 2007.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Branquinho da Fonseca

Colecção «Memória de Cascais», n.º 2
Câmara Municipal de Cascais, 1997

sábado, 22 de março de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e hitoriadores em Cascais (8)

Itinerário de Branquinho da Fonseca: da vila à serra, com terminal na Guia

João Gaspar Simões e António José Branquinho da Fonseca (Mortágua, 1905 -- Malveira da Serra, 1974) são dois nomes indissociáveis por razões culturais e percurso de vida, com encontros e desencontros que extravasam o âmbito deste artigo. Tendo já sido referida a revista presença, diga-se apenas que o seu percurso comum se iniciou uns anos antes, ainda nos bancos do liceu em Coimbra. (31) A acção e a presença de Branquinho da Fonseca em Cascais merecem, mais que um artigo, um estudo monográfico. A sua actividade como director do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães -- nomeado em 20 de Dezembro de 1941 e tomando posse a 2 de Janeiro seguinte --, a remodelação e o incremento que lhe deu em número de visitantes, o enriquecimento bibliográfico, a abertura da sala de arqueologia com o riquíssimo espólio das grutas de Alapraia, o arranjo do parque envolvente (32), o arejamento de mentalidades que o seu desempenho proporcionou, culminando com a instituição duma Biblioteca Itinerante que percorria os lugares mais recônditos do concelho -- experiência que, como se sabe, o escritor viria a desenvolver no país inteiro em consequência do convite que lhe fez a Fundação Calouste Gulbenkian para o efeito --, assinalam de forma exemplar a sua missão em Cascais.Licenciado em Direito, acumulava estas funções com a assessoria jurídica na Base Naval de Lisboa. (33)
Poeta e novelista, Branquinho da Fonseca entra na história da literatura como contista de técnica segura e autor de uma obra-prima, O Barão (1942), pelo menos ultimada em Cascais -- assegura-nos uma carta do escritor ao poeta Carlos Queirós, escrita da Rua Manuel Joaquim do Avelar, n.º 1, em 4 de Dezembro de de 1941 (34), vinte dias antes da sua nomeação como conservador do Museu, instalado na velha «Torre de São Sebastião» de Jorge O'Neill:
«Estes velhos palácios, quase abandonados, olho-os sempre, de longe, como um sonho de conforto, de intimidade e de bem-estar: de estabilidade na vida. Independência e sossego, possibilidade de fazer a vida como seja a nosso gosto! Um velho solar de paredes que tenham vivido muito mais do que eu, dessas paredes que têm fantasmas, e em volta um grande parque de velhas árvores, com recantos onde nunca vai ninguém. Viver o tumulto das grandes cidades e depois o silêncio, a solidão desses paraísos abandonados há muitos anos, onde entramos com não sei que inquietação, como quem desembarca numa ilha desconhecida... Ah! Isso, sim, é que me dava outras possibilidades de ser, de compreender, de ir pelo meu caminho.» (35)
Há muitos elementos sobre Branquinho da Fonseca em Cascais que ficarão para um eventual monografia a fazer-se. Neste escorço, refira-se apenas as moradas do escritor, depois do n.º 1 da «Rua do Avelar», residência dos sogros: a «Casa da Vinha Virgem», à Travessa Tenente Valadim, n.º 4 (36) e a «Casa dos 4 Moinhos», na Malveira da Serra, por si mandada edificar e onde viveria os seus últimos dias.
Um outro dado, por quase desconhecido, não pode deixar de ser aqui assinalado. Em pleno Estado Novo, no pós-guerra, quando a vitória dos Aliados obrigou Salazar a um simulacro de elições livres, permitindo a constituição de uma vasta frente de oposição: o Movimento de Unidade Democrática (MUD). Branquinho da Fonseca, apesar das funções públicas que exercia, não se eximiu a ser o organizador do MUD em Cascais, com todos os riscos que tal acarretou, de demissão, prisão ou exílio. (37)
Branquinho da Fonseca está enterrado, ao lado de sua mulher, no Cemitério da Guia (por coincidência, ao lado da campa dos bisavós de quem escreve estas linhas). Os descendentes são munícipes de Cascais.

Notas
(32) João Gaspar SIMÕES, José Régio e a História do Movimento da «presença», Porto, Brasília Editora, 1977 : 97.
(33) Branquinho da FONSECA, Relatório do Conservador do Museu Biblioteca do Conde de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.
(33) Informação prestada pelo seu filho, Tomás Branquinho da Fonseca.
(34) In Boletim Cultural, n.º 1, -VI série, Lisboa, Serviços de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1984 : 35-36.
(35) Branquinho da FONSECA, O Barão, 4.ª edição, Lisboa, Portugália editora, 1962 : 25-26.
(36) Informação de Tomás Branquinho da Fonseca.
(37) José Magalhães GODINHO, Pela Liberdade, Lisboa, Publicações Alfa, 1990 : 46.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Custódio Castelo: um fadista nasceu em Birre


Custódio Castelo é talvez o maior compositor de fado actual. Guitarrista autodidacta, o seu trabalho com Cristina Branco, primeiro, com Margarida Guerreiro, agora, além da obra a solo, está aí para ser ouvida.
Ribatejano, aparece na Caverna pela razão simples da excelente entrevista que deu a Manuel Halpern, no último JL (n.º 977), revelando as suas raízes musicais, os primeiros tempos como músico de baile, até que:
«Certo dia, depois de um concerto, foram comemorar o aniversário do pianista da banda, no único restaurante aberto até tarde na zona: a casa de fados Forte Dom Rodrigo. Foi ali que ouviu pela primeira vez a guitarra portuguesa ao vivo. E logo pelas mãos de José Luís Nobre Costa. Ficou tão maravilhado pelo som que decidiu comprar uma no dia seguinte.»


Custódio Castelo, Variações - Fado Corrido em Ré Maior


Margarida Guerreiro, Estranha Forma de Vida

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Estoril, 1950

Mãe e Filho, foto de Gordon Parks

(tirado do magnífico O Século Prodigioso)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

D. Carlos I

na Cidadela de Cascais

sábado, 12 de janeiro de 2008

sábado, 5 de janeiro de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e historiadores em Cascais (7)

A Casa do «Dragão da Crítica»
Romancista, ensaísta, memorialista e dramaturgo, João Gaspar Simões (1903-1987) é o crítico por antonomásia, pelas décadas de escrita em que pontificou nos principais jornais do país: Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias, além de muitas outras publicações periódicas. Autor de uma obra vastíssima em que avultam as biografias de Eça de Queirós (1945) e Fernando Pessoa (1950), Simões é também um dos pais fundadores do chamado segundo modernismo português, tendo dirigido com José Régio e Branquinho da Fonseca uma das principais revistas literárias do século XX - a presença.




[a Casa do Dragão em construção, 1942/43]




O novelista de Elói ou Romance numa Cabeça mandou erigir uma magnífica moradia -- encomendando o projecto a um arquitecto local, Joaquim Ferreira (1911-1966) -- situada na Avenida Emídio Navarro. Nela residiu entre 1943 e 1957, período a que respeitam e onde foram redigidas (parcialmente, a primeira) as já referidas biografias marcantes de Eça e Pessoa. É nesta última que se publica pela primeira vez o célebre requerimento de 1932, com que o poeta se candidatou ao lugar de conservador do Museu Condes de Castro Guimarães (26), documentação que lhe foi facultada por Branquinho da Fonseca, então director da instituição. (27)

[.ª edição de Eça de Queiroz -- O Homem e o Artista]
A «Casa do Dragão» foi assim crismada pelo arquitecto, uma vez que a fama de condicionar percursos de livros e autores, mediante uma sua crítica, positiva ou desfavorável, já estava perfeitamente adquirida. O tradicional galo do catavento foi assim substituído por um dragão, pois, segundo Joaquim Ferreira, Gaspar Simões era um autêntico «Dragão da Crítica». (28)


[o catavento do Dragão. Foto de Guilherme Cardoso]






Do muito a que se assistiu dentro daquelas quatro paredes, as memórias e correspondências, entre outras fontes, farão algumas revelações. Para já, registemos uma das primeiras leituras que ali tiveram lugar da peça de Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) -- um dos grandes textos da dramaturgia portuguesa de novecentos -- em 30 de Dezembro de 1944, na presença da actriz Manuela Porto (1908-1950). (29). Leitura de que, dias mais tarde, a 7 de Janeiro, dará notícia ao ensaísta Guilherme de Castilho (1912-1987) -- também com fortes ligações ao concelho de Cascais, de que tratarei noutra oportunidade: «Dos dois actos prontos, fiz três audições privadíssimas (uma na «Casa do Dragão», em Cascais -- bela casa, está-se lá admiravelmente![)]». (30)


NOTAS

(26) Fernando Pessoa -- A Biblioteca Impossível, com prefácio de Teresa Rita Lopes, Cascais, Câmara Municipal, 1995.
(27) João Gaspar SIMÕES, Vida e Obra de Fernando Pessoa, 5.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987 : 592, n.14.
(28) Informação que me foi dada pela filha do escritor, Maria Joana Gaspar Simões Alpuy.
(29) Jorge de SENA, O Indesejado (António, Rei), 3,ª edição, Lisboa, Edições 70, 1986 : 177.
(30) Jorge de SENA e Guilherme de CASTILHO, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981 : 49-50.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sob o Signo do «Dragão da Crítica»: Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (6)


O Conde de Arnoso e a «Casa de S. Bernardo»

Arnoso e sua mulher, Matilde, à varanda
da «Casa de S. Bernardo»

Há, porém, aquelas casas que se mantêm como memória viva dum rasto, até pela discrição com que atravessaram os anos. É o que se passa com a «Casa de S. Bernardo», do Conde de Arnoso, por si projectada, um dos edifícios mais importantes de Cascais -- pelo que simboliza --, construído no início da década de 90 do século XIX (21) e que, pretendendo opor uma casa ao «estilo minhoto», uma arquitectura nacional, à habitação de veraneio de influência estrangeira, cujo exemplo mais notável é a famosa «Casa Palmela», de Thomas Henry Wyatt (22), inaugura a questão da casa portuguesa. (23)
Sucede que o Conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Melo, Guimarães, 1855 - Cascais [?], 1911) -- também ele escritor --, além de ocupar funções de Estado relevantíssimas no reinado de D. Carlos I, como seu secretário particular, foi um dos onze elementos dos Vencidos da Vida, grupo que existiu entre 1888 e 1893, em que, entre cortesãos e literatos, pontificaram Oliveira Martins e Eça de Queirós. Este era amigo dilecto de Arnoso, tendo prefaciado o seu primeiro livro, Azulejos (contos, 1886). Eça, amigo também do Conde de Sabugosa (1854-1923), do Conde de Ficalho (1837-1903) e de Carlos Lobo d'Ávila (1860-1895), filho do conde de Valbom, todos eles também homens de letras -- essencialmente erudito o primeiro, académico cientista e excelente contista o segundo, publicista o último -- (Eça) veraneava em Cascais, participando da vida social, frequentando as instalações da «Parada» -- Sporting Club de Cascais, de que foi sócio (24), hospedando-se muitas vezes na «Casa de S. Bernardo». Um fragmento duma carta do autor de Os Maias ao seu amigo «Bernardo, o bom», datada de Paris, em 25 de Julho de 1896, publicada pelo biógrafo brasileiro Luís Viana Filho, é a todos os títulos eloquente: «[..] não te digo a saudade com que penso na varanda de Cascais e nas preguiçosas manhãs passadas a pasmar para a luz e para a água, nas cavaqueiras com prima Matilde, e nas noitadas em que sob o silêncio e a penumbra propícia decidíamos os grandes problemas. Imagino que toda essa delícia aí se está repetindo, e que tem havido na varanda todas as cousas boas, vós, Sabugosas, luar, frescura do mar, e um bocado de guitarra. Dá mil saudades a todos esses queridos amigos da varanda.» (25)*
*Já depois de apresentado este texto, a família Arnoso, que até há pouco mantinha a propriedade da casa, alienou-a à empresa concessionária da Marina de Cascais.
Notas:
(21) Pedro FALCÃO, Cascais Menino, vol. III, Cascais, edição do Autor, s.d. : 240.
(22) Regina ANACLETO, «Um caso singular no goticismo nacional: o Palaceta Palmela», Arquivo de Cascais, n.º 11, Cascais, Câmara Municipal, 1992-94: 103-149.
(23)Raquel Henriques da SILVA, Cascais, Lisboa, Editorial Presença : 74.
(24) Ricardo António ALVES, Eça e os Vencidos da Vida em Cascais, Cascais, Câmara Municipal, 1998 : 58.
(25) Luís VIANA FILHO, A Vida de Eça de Queiroz, Porto, Lello & Irmão, 1983 : 277.
(continua)

domingo, 9 de dezembro de 2007

Casa de S. Bernardo

foto de Luís Miravent
in Raquel Henriques da Silva, Cascais,
Lisboa, Editorial Presença, 1988

domingo, 2 de dezembro de 2007

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (5)

Conhecer casas


Às residências, temporárias ou definitivas, dos escritores associamos as obras que nelas foram produzidas, ou imaginamos tê-lo sido. Várias são as habitações conhecidas, algumas já estão assinaladas pela edilidade, outras, porém, estão por conhecer. Da casa da irmã de Fernando Pessoa (1888-1935), na Rua de Santa Rita, n.º 5, em S. João do Estoril, até à do historiador das religiões Mircea Eliade (1907-1986), adido cultural e de imprensa à embaixada da Roménia em Lisboa, entre 1941 e 1945, morador -- entre outras residências em Cascais --, na Rua da Saudade, n.º 13. (19) Algumas estão em ruínas, como o «Casal da Trindade», do historiador Fontoura da Costa ( a quem me referirei adiante), na Avenida Marginal, em S. Pedro do Estoril; outras, ainda, desapareceram, dando lugar a novas edificações, como sucedeu com o «Chalet Zulmira», onde Ferreira de Castro habitou e escreveu em meados da década de 30. (20)

NOTAS
(19) Embora encontremos nas suas Memórias referências à Rua da Saudade, até hoje só um documento -- uma carta de Mircea Eliade a Ferreira de Castro, em 1945 (Museu Ferreira de Castro: MFC/B-1/3054/Cx. 238), indica o número de polícia da habitação, o que permitiu o descerramento duma placa a assinalar um local onde o grande autor romeno iniciou e escreveu algumas das suas obras mais importantes.
(20) Ricardo António ALVES, «Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade», Boca do Inferno, n.º 3, Cascais, Câmara Municipal, 1998 : 91-125.

FOTO: Fernando Pessoa em casa de sua irmã, Henriqueta Madalena, em S. João do Estoril, tirada daqui.

(continua)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Sob o Signo do «Dragão da Crítica» - Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (4)

O Cânone Poético de Cascais

Cascais passou a ser diferente quando Almeida Garrett (1799-1854) publicou Folhas Caídas (1853). O poema «Cascais», poderosa expressão lírica do romantismo, pela intemperança, volubilidade, transgressão que encerra, veio acrescentar algo ao património cultural cascaense. Não vemos Cascais do mesmo modo depois de lermos este poema, pois a nossa relação com o espaço será inevitavelmente condicionada por ele. A composição tem assim uma dimensão ontológica que altera a percepção, a vivência, em suma a sensibilidade de quantos a lêem em face duma realidade geológica com milhões de anos, até então apreendida sempre da mesma forma pelo homem -- ou, mais rigorosamente, nunca uma estesia semelhante fora manifestada e comunicada desta maneira: «Inda ali acaba a Terra, / Mas já o céu não começa; / Que aquela visão da serra / Sumiu-se na treva espessa, / E deixou nua a bruteza / Dessa agreste natureza.» (16) Garrett, foi, portanto, uma espécie de patrono literário de Cascais, um autor citado sempre que se pretendia mostrar como «estes sítios» (outro poema de Folhas Caídas sobre o espaço cascaense) haviam sido um estímulo para um grande escritor.
Em meados so século XX, o poeta moçárabe (17) Abu Zayd 'Abd ar-Rahman ibn Muqãna (al-Qabdaqi al-Lixbuni), século XI, natural do lugar de Alqabdaq, surge como autor a (re)descobrir. Para além do interesse histórico-cultural da sua poesia -- em que encontramos «uma das mais antigas referências literárias aos moinhos de vento, situados na Europa» (18) -- trata-se também de um excelente poeta do Andaluz. Com a inauguração do monumento que o evoca, da autoria do escultor António Duarte (autor também da estátua de D. Pedro I, no coração da vila), Ibn Muqãna (ou Mucana) foi talvez o primeiro poeta -- em especial com o conhecido «Poema de Alcabideche», objecto de várias versões -- a ser incorporado na bagagem cultural do grande público, mercê também das disciplinas escolares orientadas para as realidades locais que vigoram nos programas de há algumas décadas para cá.
Em meados do anos 60 Cascais tinha dois ex-libris poéticos que ultrapassavam a condição de meras referências literárias, sendo antes dois textos canónicos absolutamente definitivos e adquiridos pela população estudantil e de média formação cultural.
Notas:
(16) Almeida GARRETT, Folhas Caídas, Mem martins, Publicações Europa-América, s.d. : 56.
(17) María de Jesus RUBIERA MATA, Ibn Muqãna de Alcabideche, 2.ª edição, Cascais, Associação Cultural de Cascais, 1996 : 7-8.
(18) Fausto do Amaral de FIGUEIREDO, «Abú Zaíde Ibne Mucana», Cascais e os Seus Lugares, n.º 20, Estoril, Junta de Turismo da Costa do Sol, 1966 : 16.
(continua)

domingo, 11 de novembro de 2007

Alexandre Babo

Alexandre Babo (1916-2007) morreu no passado dia 2 de Novembro no Hospital de Cascais. Natural de Lisboa, foi um destacado oposicionista, membro da Maçonaria e militante do PCP. À frente da editora Sirius, publicou Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, com capa de Álvaro Cunhal. Homem de teatro, foi um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto. Autor de várias peças, ensaios, traduções e do interessantíssimo livro de memórias Recordações de um Caminheiro (1993), uma fonte em primeira mão para a história da oposição ao Estado Novo.
Vivia na Parede. Recordo-me de vê-lo assiduamente nas «Conversas de Cascais», iniciativa que coordenei no Museu Condes de Castro Guimarães, entre 1994 e 1997.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sob o signo do «Dragão da Crítica» - Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (3)

Aquilino Ribeiro (1885-1963), grande mestre da língua portuguesa, um dos maiores escritores portugueses do século XX, comentava desta forma aquilinianamente degustativa, para o Guia de Portugal, coordenado por Raul Proença, o nosso «Carcavelos»: «saborosa jeropiga de tão grande consumo em todo o país sob o nome de Vinho de Carcavelos, e em Inglaterra, sob o de Lisbon Wine.» (10)
Ferreira de Castro (1898-1984), que viveu e escreveu no Estoril na década de 30 (11), num dos seus livros da primeira fase (eliminada da sua bibliografia), tem este apontamento lúgubre e belo: «Cascais, adormecida, vergastada pelo mar, dir-se-ia uma dessas povoações de pescadores que, vistas de noite, parecem cemitérios devastados.» (12)
Fernando Lopes-Graça (Tomar, 1906 -- Parede, 1994), não só um dos principais compositores portugueses como o mais proficiente musicólogo e ensaísta de música do seu tempo -- e, enquanto tal, autor de uma vasta bibliografia onde se espelha o estilo finíssimo de escritor --, em entrevista a Baptista-Bastos para o semanário Ponto, em 1981: «O meu país é a Parede». (13)

Nem sempre as evocações são agradáveis, não deixando, obviamente, por isso, de ter significado. Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), o imortal autor de Voo Nocturno e de O Principezinho, quando, em 1940, escalou em Lisboa, rumo a Nova Iorque, regista, na Carta a um Refém (1944), aquela consabida expressão de Lisboa como «uma espécie de paraíso claro e triste.» (14) Hospedado no Hotel Palácio, Saint-Ex registou a atmosfera geral, «irreal», dos frequentadores do Casino, como que alheados da carnificina europeia que, não muito longe dali, se desenrolava, dia e noite. «Ia respirar à beira-mar. E aquele mar do Estoril, mar de cidade termal, mar domesticado, parecia-me entrar também naquele jogo. Impelia para dentro da baía uma única vaga mole, toda luzidia de luar, como um vestido de cauda fora da estação.» (15)

NOTAS:

(10) In Raul PROENÇA (dir.), Guia de Portugal I. Generalidades, Lisboa e Arredores [924] Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991 : 612.
(11) Ricardo António ALVES, «Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade», Boca do Inferno, n.º 3, Cascais, Câmara Municipal, 1998 : 91-125.
(12) Eduardo FRIAS e Ferreira de CASTRO, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1924 : Apesar de se tratar duma parceria, não me oferece dúvida o que saiu da pena de um e de outro.
(13) A. BAPTISTA-BASTOS, Um Homem em Ponto. Entrevistas, Lisboa, Relógio d'Água, 1984 : 59.
(14) A. de SAINT-EXUPERY, Carta a um Refém, tradução de Francisco G. Ofir, Lisboa, Grifo, 1995 : 7.
(continua)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sob o signo do «Dragão da Crítica» - Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (2)



Uma localidade distingue-se pela morfologia própria, como pelo conjunto patrimonial que se foi acrescentando ao longo dos tempos. Os grandes escritores, porém, dão-lhe carácter.
Não é difícil encontrar referências a Cascais; elas são múltiplas. Exemplos:
Eça de Queirós (1845-1900), em carta a sua mulher, datada de Cascais, em 11 de Maio de 1898, refere-se à característica nortada primaveril que costuma abater-se sobre a vila, rematando da forma que se segue (e que inspirou este blogue...):
«Cascais é a caverna do velho Éolo, rei dos Aquilões.» (6)

Raul Brandão (1867-1930), registando nas suas memórias a agonia da Monarquia e o clima de fim de festa que por cá se vivia:
«A Parada era a capital do reino de Cascais.» (7)

João de Barros (1880-1960), acompanhando o romancista inglês Somerset Maugham num passeio pela nossa orla marítima:
«Praia do Guincho -- últimas areias da Europa».(8)

Jaime Cortesão (1884-1960), banido pelo regime salazarista em 1940, exilado no Brasil, professor de diplomatas no Itamarati (Instituto Rio Branco), nomeado pelo governo brasileiro comissário da exposição do IV Centenário da Fundação de São Paulo, regressado a Portugal, temporariamente, com passaporte diplomático para pesquisar nos arquivos portugueses documentação que servisse esse importante evento, encontra-se exilado no seu país, numa terra de monarcas exilados, o Estoril, a que chama
«os Paços reais do exílio.» (9)


Notas:

(6) Eça de QUEIRÓS, Correspondência, vol. II, leitura, coordenação, prefácio e notas de Guilherme de Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983 : 442.
(7) Raul BRANDÃO, Memórias, vol. I [919] Lisboa, Perspectivas & Realidades, s.d. : 214.
(8) João de BARROS, Hoje, Ontem, Amanhã, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950 : 177.
(9) Jaime CORTESÃO, «Estoril -- estância cosmopolita», Cascais e Seus Lugares, n.º 9, Cascais, Junta de Turismo de Cascais, 1956 : 28.
(continua)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

domingo, 14 de outubro de 2007

catavento

Um catavento de Cascais, da casa que foi de João Gaspar Simões: a "Casa do Dragão".
Porque tem ela este nome, a seu tempo direi.
Foto de Guilherme Cardoso
 
Golf
Golf