
É um lugar-comum, mas nem por isso menos verdadeiro: com a morte de João Pedro Cabral, ocorrida no dia 12, o património histórico e cultural de Cascais fica mais pobre -- mas também mais vulnerável.
Cascais é a caverna do velho Éolo, rei dos Aquilões - Eça de Queirós

Em Cascais, de costas para a Cidadela e ajeitando a gravata, num auge solitário de virilidade, Rui Ruivo resistia, neurasténico, ao velório da monotonia e da cidadania.
Itinerário de Branquinho da Fonseca: da vila à serra, com terminal na Guia
Custódio Castelo, Variações - Fado Corrido em Ré Maior
Margarida Guerreiro, Estranha Forma de Vida
(tirado do magnífico O Século Prodigioso)

Eça e Pessoa. É nesta última que se publica pela primeira vez o célebre requerimento de 1932, com que o poeta se candidatou ao lugar de conservador do Museu Condes de Castro Guimarães (26), documentação que lhe foi facultada por Branquinho da Fonseca, então director da instituição. (27)
O tradicional galo do catavento foi assim substituído por um dragão, pois, segundo Joaquim Ferreira, Gaspar Simões era um autêntico «Dragão da Crítica». (28)

O Cânone Poético de Cascais
Alexandre Babo (1916-2007) morreu no passado dia 2 de Novembro no Hospital de Cascais. Natural de Lisboa, foi um destacado oposicionista, membro da Maçonaria e militante do PCP. À frente da editora Sirius, publicou Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, com capa de Álvaro Cunhal. Homem de teatro, foi um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto. Autor de várias peças, ensaios, traduções e do interessantíssimo livro de memórias Recordações de um Caminheiro (1993), uma fonte em primeira mão para a história da oposição ao Estado Novo.




Por razões pouco compreensíveis, o património literário tem sido o parente pobre dos estudos de história local. (1) No caso de Cascais, essa debilidade é particularmente evidente. Os literatos que o concelho ofereceu ao país não se distinguiram pela notoriedade post mortem, apesar do brilho das suas obras e/ou personalidades, amplamente reconhecidas pelos coetâneos. José da Cunha Brochado (Cascais, 1651 -- Lisboa, 1733), por exemplo, notável diplomata e académico, memorialista e epistológrafo, foi lentamente recuperado durante o último século -- recuperação quase milagrosa, dado o estado de dispersão em que se encontra o seu acervo, em grande parte ainda inédito. José Inácio Roquete (Alcabideche, 1800 -- Santarém, 1870) -- aliás, Frei José de Nossa Senhora do Cabo Roquete, depois de professar no convento de Santo António do Estoril -- politicamente reaccionário, miguelista exilado em Londres e Paris, onde auxiliou o Visconde de Santarém no monumental Quadro Elementar (1842-1854). Autor de uma obra vasta, disse quem a compulsou ser ela um exemplo da conjugação de «beleza literária» com a «substância doutrinal». (2) Da teologia e da história à didáctica e à tradução, estará hoje quase toda irremediavelmente datada -- o que não impede que, pelo menos dum ponto de vista local, conheçamos as suas linhas de força, por exemplo através duma antologia. Trata-se de um imperativo. O mesmo se passa, de resto, com o ensaísta, poeta, professor da Faculdade de Letras do Porto e membro da «Renascença Portuguesa» (3) Luís Cardim (Cascais, 1879 -- Porto, 1958), grande mestre dos estudos shakespeareanos em Portugal, remetido para um limbo de que urge resgatá-lo. (4)
«Nesse início de tarde, estando eu no [Hotel] Baía com a D. Mirita, vimos passar Torga, que momentaneamente parou para perguntar onde ficava o Teatro Gil Vicente. Uma das pessoas informou aquele senhor que, subindo na direcção daquele beco, lá iria ter, mas que vinha ali a D. Mirita que, certamente, ia para o Teatro.
Ao nosso encontro vem Torga, no seu passo apressado, com um rosto granítico, estendendo o seu enorme braço, que diz para Mirita: "Muito prazer em conhecê-la pessoalmente, minha senhora." Mirita olhou-o com aqueles grandes olhos, e contempla, da sua pequena altura, a figura imponente de Torga. Depois apresentou o rapazito que iria representar a sua peça... Encaminhámo-nos pelos becos, direitos ao Teatro Gil Vicente. Limitei-me a ouvir a conversa de Mirita e Torga. Falaram de Viseu, da dinastia dos Casimiros, de S. Martinho de Anta, do sol radiante que estava nessa tarde, etc. Torga fazia umas paragens, contemplando a parte antiga de Cascais, nessa altura ainda não destruída como hoje. [...]
Ao chegarmos ao largo do Gil Vicente, surge o velho "carocha" Volkswagen acinzentado, com a figura simpática, extrovertida, simpática, sei lá... de Mestre Almada Negreiros [...] Torga deu o braço a Almada e entraram, na maior das boas disposições, no teatro.
Na sala de entrada do teatro havia uma certa desarrumação, pois todo o guarda-roupa, concebido por Almada, tinha ali sido concebido. Em cima de uma mesa estava a maqueta, construída pelo próprio Almada. Torga ficou deslumbrado e examinou com pormenorizada atenção, aquilo que viria, passados cerca de 15 minutos, a ver no palco.
No dia seguinte, perguntei a Paula Almada Negreiros (filha do Mestre e de Sarah Affonso) por Torga: "Entrou no nosso carro, mal acomodado, e quis ficar junto da estação do Estoril, pois queria apreciar a paisagem até Lisboa ["]. Almada Negreiros seguiu para a sua casa de Bicesse. [..]»

Nas Viagens na Minha Terra (1845/46), Garret discorre sobre o gosto britânico pelos nossos vinhos, referindo-se brevemente ao Carcavelos, entre outros, designando-o primeiro por «Lisboa» -- tal como os ingleses faziam: Lisbon Wine. Queixava-se o nosso autor da preferência que os velhos aliados estavam a dar à «jacobina zurrapa de Borgonha»:João Maria Ferreira Sarmento Pimentel (Eixes, Mirandela, 1888 -- São Paulo, 1987).
Oficial do Exército, escritor memorialista, fidalgo republicano, Sarmento Pimentel é uma das mais apaixonantes figuras do século XX português. Oriundo da velha aristocracia nortenha, participou em alguns dos mais importantes lances da história de novecentos, com um papel de grande destaque. Não ainda na Rotunda, em 5 de Outubro de 1910, jovem cadete subordinado. Mas em 1915, na guerra de África contra os alemães, teve intervenção importante na reconquista de Naulila, sul de Angola, em 1915, comandando um destacamento luso-boer, e passa pelo inferno das trincheiras da Flandres. Em Portugal, tendo colaborado com Sidónio Pais, será o chefe das forças que põem fim à Monarquia do Norte, em Fevereiro de 1919. Membro da direcção da Seara Nova, será chefe de gabinete de Ezequiel de Campos no governo de Álvaro de Castro (1923-24). Após o 28 de Maio de 1926, está implicado no golpe do 3/7 de Fevereiro do ano seguinte, que lhe valerá o exílio, estando na origem do seu exílio no Brasil, onde deixará descendência.
Para além dos aspectos de vida intensamente vivida, Sarmento Pimentel foi um extraordinário escritor, como revelam as suas Memórias do Capitão, cuja primeira edição veio a lume no Brasil pelas mãos do então também exilado Victor Cunha Rego, em 1962. São páginas de grande riqueza estilística, saborosamente evocativas, de travo camiliano.
Num dos poemas que lhe dedicou, Jorge de Sena escreveu: «[...] / Assim, senhor, eu vos saúdo e digo / de como em vida me vivi honrado / com conhecer-vos e por vós ser tido / por digno de amigo e camarada / nas horas duras de se amar a pátria / com amor infeliz, como naquelas / em que de convivência ela renasce / tão pura qual nenhuma pátria humana: / é uma grã-cruz que vossa senhoria / colocou no meu peito e que mais vale / que quantas de vaidade só refulgem. / E pesa como séculos de História / qual em vossas memórias revive. / [...]» 40 Anos de Servidão, 2.ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1982, p. 180.
Dessas Memórias retiro um breve parágrafo em que, a bordo, o jovem alferes de cavalaria ruma a Angola, após o desastre de Naulila de 1914:
«Madrugamos para um último adeus à terra metropolitana, e a brisa do mar refrescou o convés ainda quente daquela noite de Junho, quando chegamos a Cascais.
Rompeu o "Cabo Verde" pelo mar fora, tão calmo e vagaroso como velho andarilho que já soubesse de cor e salteado o caminho a percorrer. Naquele dia perdemos de vista a costa e embicamos ao sul rumo da África, havendo apenas de anormal o barulho dos cascos dos solípedes no assoalho dos porões, muito aumentado quando o clarim tocou para a ração.»
Memórias do Capitão, Porto, Editorial Inova, 1974, p. 143.
Na net:Brasil/Portugal - Testemunhos/Encontros; Câmara Municipal de Mirandela
