domingo, 19 de abril de 2009

Luís Cardim (Cascais, 1879 - Porto, 1958), PROJECÇÃO DE CAMÕES NAS LETRAS INGLESAS (1940)

PALAVRAS PRÉVIAS
O presente trabalho é constituído pela adaptação a Caderno Cultural duma conferência realizada, em Agosto de 1939, no Curso de Férias da Faculdade de Letras de Lisboa, por muito amável e honroso convite da sua ilustre Comissão Directiva.
Luís Cardim, Projecção de Camões nas Letras Inglesas, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Bernardino Machado na Cidadela

No blogue dedicado a Bernardino Machado, de Manuel Sá-Marques
Foto de 1917, Bernardino com Norton de Matos e Leote do Rego.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Almada Negreiros, MATERNIDADE (1948)

-- Nos desenhos da Maternidade, o menino transforma-se num pássaro, num mosquito, numa coisa, desfeito em brinquedo nas mãos da mãe. No fim já é só um frangalho.
-- Onde é que foram feitos os desenhos da Maternidade?
-- Os desenhos da Maternidade foram feitos em Bicesse, num dia entre as 10 da manhã e as 8 da noite.
Para mim foi uma coisa maravilhosa!
Desceu a rir a escada do quarto que vem a dar à sala. Vinha muito bem-disposto, com uma resma de papel debaixo do braço: «Olha, diz, para me trazerem o pequeno-almoço e que mo ponham na mesa de pedra.» Era ali, naquela mesa de mó de moinho que ele gostava de tomar o pequeno-almoço no Verão. Tomou o pequeno-almoço, pôs de lado o tabuleiro e começou a desenhar.
Era maravilhoso!
Depois veio o almoço. Voltou-se a tirar os papéis, comemos, acabámos e voltou ao desenho.
Depois veio o lanche e voltou até à noite.
Não assinou, pôs só 48, foi em Agosto.

Maria José Almada Negreiros, Conversas com Sarah Affonso, 2.ª edição, Lisboa, o jornal, 1985, pp. 150-151.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

poesia de cascais #14 - António Graça de Abreu



Outono, na casa das Areias, S. Pedro do Estoril

Depois de uma noite de chuva
tudo claro e limpo.
A buganvília, as árvores pequenas,
cada uma com a sua seiva.
Os pardais, os melros negros,
cada um com o seu trinar.
Os insectos, as moscas,
cada uma com o seu voar.
Por baixo, insondável a grandeza da terra,
por cima, infinita a altura do céu.
Fácil, entrever a aparência das coisas,
difícil, penetrar na essência do todo

sexta-feira, 27 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

poesia de cascais #13 - Jorge Marcel

senhor poeta desculpe mas deveria
por nascido em Cascais ser mais respeitador
você que tem olho para o brilho do brunido
nunca notou o inconfundiveloso ar
com que os testas-coroados esvoaçam a baía?
não lhe chegariam a si os dedos
das suas quatro curtas proletárias extremidades
para atingir o número de avenidas
que na sua simpática vila têm
nome de rei ou arquiduque-passa
graças a deus que os seus camariosos
têm sido ao presente bem nascida
e não se dimentique
tivesse o yacht areado noutra areia
anadaria agora o poeta aos polvos
sem aprender a usar gravata-laço
senhor poeta desculpe mas deveria
ser no que escreve um ponto menos grosseirote
ser mais à reverência e não causar
com o seu verso francamente vil, baixote
à hora do almoço do exílio ao domicílio
tanto alvoroço tanto quezílio tanto embaraço

sábado, 14 de março de 2009

A. FONTOURA DA COSTA (Alpiarça, 1869 - Cai-Água / S. Pedro do Estoril, 1940) - A EVOLUÇÃO DA PILOTAGEM EM PORTUGAL (1931)

Discurso lido na sessão inaugural da abertura das aulas da Escola Naval, no dia 11 de Outubro de 1930.
Senhor Presidente da República
Meus Senhores
Camaradas:
Sendo hoje a primeira vez que se reaiza uma sessão inagural da abertura das aulas da Escola Naval, na vigência do regimen republicano, é justo que comece por prestar a mais sincera e saudosa homenagem aos ilustres professores que abandonaram o magistério após o anos de 1910.
A. Fontoura da Costa, A Evolução da Pilotagem em Portugal, Lisboa, Imprensa da Armada, 1931, p. 5.

domingo, 8 de março de 2009

poesia de cascais #12 - Fiama Hasse Pais Brandão


DA COSTA DE CASCAIS

Aqui, na orla do mar, as cruzes
são sinais de pescadores perdidos
no fundo, mortos, quando buscam
o sal da vida. Em vez de a sua força
fazer ceder a vaga sob o anzol,
é a força do mar ou a paixão da vida
-- arquejante e morta --
que os puxa para um purgatório
de água revolta e de limos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

JOSÉ DA CUNHA BROCHADO (Cascais, 1651 - Lisboa, 1733) - "Embaixador mesquinho"

Resolvendo a Rainha D. Catarina voltar para Portugal depois da última revolução de Inglaterra mandou El-Rei o Conde de Pontevel para a conduzir em qualidade de Embaixador a quem deu grossas ajudas de custo. Partiu ele de Lisboa, e segundo dizem com muito pobre equipagem, e de nenhum modo em grande Senhor. Chegando a Orleães encontrou a Manuel Dias, Capelão da Rainha, que trazia ordem para o fazer voltar para Portugal, por quanto S. Mag.de não podia por então sair de Inglaterra a que o Conde replicou, que ele havia de fazer a sua jornada, e dela não havia de desistir sem ordem do seu Rei. Instou o Padre com as mais fortes razões, que pôde, mostrando uma carta expressa da Rainha, e sendo esta circunstância notavelmente diversificante do estado das cousas, e que ele ao menos devia fazer presente ao seu Príncipe para com a sua resolução continuar a jornada, ou voltar-se, nada obrou, e porfiosamente propôs segui-la, dando a entender que não queria perder a jóia, e utilidades, que esperava tirar desta função. [...]

Memorias de José da Cunha Brochado Extrahidas das Suas Obras Ineditas por Mendes dos Remedios, Coimbra, França Amado Editor, 1909, p. 1; edição fac-similada, Cascais, Câmara Municipal, 1996.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

linhas de cascais - Vergílio Ferreira



Havia damas que nunca se viam na rua. Vira-as ele, Chico, fumando e bebendo no Estoril. Évora era a Queresma e Lisboa o Carnaval.

Vergílio Ferreira, Aparição, Lisboa, Editorial Verbo, 1971, p. 31.

Pessoa em Bicesse

-- O quadro do Fernando Pessoa foi feito aqui em Bicesse, no atelier do pinhal, não foi?

-- Foi.

Maria José Almada Negreiros, Conversas com Sarah Affonso, 2.ª edição, Lisboa, O Jornal, 1985, p. 82.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

linhas de cascais - Assis Esperança



O paquete passa à vista de Cascais, numa manhã de sol radioso. No deck, ao lado de Rui, um grupo de ingleses prepara os kodaks; mais além, um sujeito de calva luzidia demonstra a uma senhora magrizela e empoada de rosto, que o seu guia era incompletíssimo, não assinalando, um a um, todos os pequenos aglomerados de casaria que bordam as margens do rio.

Assis Esperança, «O homem que perdeu o passado», O Dilúvio, Lisboa, Sociedade Contemporânea de Autores, 1932, p. 129.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Um escândalo póstumo - A candidatura de Fernando Pessoa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (1)


Publicado em Sol XXI, n.º 24, Carcavelos, Março de 1998
Cascais, disse Pessoa, que belo
sítio, eu também lá passei alguns dias
Antonio Tabucchi
Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa
Em 1933, Fernando Pessoa (1888-1935) fez-se fotografar em S. João do Estoril, na casa de sua meia-irmã Henriqueta Madalena Rosa Dias, mulher do coronel Caetano Dias, com quem o poeta dirigiu a Revista de Comércio e Contabilidade (1926) (1). Precocemente envelhecido, está junto da família, com uma normal dimensão humana. Prestamos especial atenção aos sobrinhos, Maria Manuela (Lili) e Luís Miguel, aos quais dedicou um terno afecto, comprovado pela iconografia, bem como pelos Poemas para Lili -- um dos quais, «No comboio descendente», foi popularizado por José Afonso. (2)
(1) Conhecem-se mais dois registos fotográficos no mesmo local, datados de 1934 ou 35. Ver Maria José de Lancastre, Fernando Pessoa. Uma Fotobiografia, s. ed., Lisboa, Quetzal Editores, 1996, pp. 267, 269 e 284.
(2) Numa entrevista ao JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, por ocasião do cinquentenário da morte de Pessoa, concedida a Maria Ivone Ornellas de Andrade, Henriqueta Madalena aludiu ao relacionamento de camaradagem que mantinham tio e sobrinhos: «Davam-se muito bem. Ele tinha uma paciência infinita. A Maria Manuela, só então Lili, brincava com ele de barbeiro e de manicura. Divertiam-se muito. O Luís miguel, embora pequeniníssimo, também entrava nas brincadeiras. O Fernando adorava fazer surpresas: costumava trazer sempre um presentinho para a minha filha, que escondia debaixo do guardanapo.» Cit. por Apud Fernando Pessoa, Escritos Íntimos. Cartras e Páginas Autobiográficas, introduções, organização e notas de António Quadros, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986, p. 257.
(continua)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

poesia de cascais #11 - Vasco Graça Moura



lavadeiras

na estrada velha, perto de minha casa,
há um lavadouro de arcadas azuis. vejo,
às vezes, as mulheres lavando a roupa,
uma ou duas, não mais, pela manhã, de

jeans e camisola, raramente de lenço
na cabeça, raramente olhando para
os carros que passam. como o almada
negreiros tinha casa ali perto, pergunto-

-me se não será ainda uma representação do tipo
gare marítima de alcântara, como a nau catrineta,
o conde ninho, outra coisa qualquer do romanceiro,
esfregada entre água fria e detergente, apenas

para a cor local do sítio de bicesse, enquanto, de
certeza, as mulheres ouvem a lambada, o rap, alguma
rumba antiga ou cantarolam os indicativos dos
anúncios radiofónicos mais estúpidos do mundo,

e os carros passam e repassam, apertando a curva.
alguns desenhos do alamada poderiam explicá-las,
no ritmo íntimo do corpo, mas já sem arabesco integrador
de uma sucessão de gestos na memória colectiva,

mas já sem colorido, já sem alegria ou tristeza,
apenas como banalidade pobre do sítio de bicesse,
atafulhando sacos de plástico com a roupa, e faça sol
ou chuva, para alguém continuar de mãos gretadas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

poesia de cascais #10 - Levi Condinho



DEVANEIOS

As Tentações de Santo Antão do Bosch
nas Janelas Verdes

O Ornette Coleman em Cascais

Nós fornicando na mata do Cabeço de Deus

O Quintelas bêbado a beijar todos os amigos

Pierrot-le-Fou

Beijar bocas de mulher por aí fora

Eugénio de Andrade Herberto Helder
Cesário Verde José Gomes Ferreira
Paul Éluard etc. etc.

A Suzete a sorrir-me ao balcão
do Banco na Marinha Grande

Canto Gregoriano à meia noite
frente a uma garrafa de vinho

A minha avó a dizer-me que
o Django Reinhaardt era a música do demónio
-- tinha eu 16 anos

O António Serafim a descrever
uma caldeirada no Montijo

Porra que não vou ser capaz de morrer

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Cascais pintado

Alfredo Keil, Fitando o Mar Largo, Peninha
colecção particular

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

poesia de cascais #9 - José do Carmo Francisco



L. C.

A tua loucura é assumida por todos nós em colectivo
Quando somos os teus leitores fiéis
À volta da máquina de fotocópias
Ou à volta da mesa na cervejaria

E quando em Cascais como se fosse Fátima
Se encontram os peregrinos de todo o País
E tu meu velho sacerdote passas horas a insultar
Todos aqueles fiéis pouco conhecedores da tua fé

Os teus livros circulam ainda fora do circuito
E não enchem as estantes dos bem instalados
Mas não te preocupa essa literatura
De professores de liceu à procura de antologia

sábado, 27 de dezembro de 2008

Uma tela e uma sinfonia para o «Cascais» de Garrett (1)

Publicado no Jornal da Costa do Sol, n.º 1550, Cascais, 22 de Janeiro de 1998.
Aos 47 anos, Almeida Garrett (1799-1854) viveu uma intensa relação amorosa com Rosa Montúfar Infante, mulher de Joaquim António Velez Barreiros (1803-1865), 1.º barão e 1.º visconde da Luz.
As cartas arrebatadas do poeta à musa, vinte anos mais nova, e o último livro Folhas Caídas (1853), trazem-nos o eco dessa paixão que teve por cenário não só os salões e os arrabaldes lisboetas, mas também estes sítios românticos dum Cascais ainda inóspito, entre o mar e a serra.
(continua)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

linhas de cascais - Miguel Real


Uma noite, na nossa casa da d. João III, reuniu-se o conselho de família, um dos irmãos do Hugo viciara-se no jogo da roleta do Casino Estoril, foi severamente admoestado, não só pelo pai como, sobretudo, pelos restantes irmãos, o Hugo, que acabara de receber a autorização do pai para assinar os cheques das empresas, humilhou o irmão, ordenou que se lhe retirasse o livro de cheques, a conta particular fosse saldada e obrigado a fazer penitência pública na sinagoga, trabalhando para a comunidade de judeus pobres -- vendedores de roupa, caixeiros-viajantes, sapateiros, a maioria asquenaze; [...] alegava ele, não teria mais de dezanove anos, que, cansado de estudar e trabalhar e antevendo a entrada breve para o serviço militar, e consequente partida para a guerra, quisera divertir-se, entretivera-se durante um mês com umas francesas que veraneavam por Cascais e tivera azar, perdera dinheiro, era verdade, mas também podia ter ganho, perdera uma fortuna, mas poderia ter ganho outra -- percebi nessa noite que a pressão da família do Hugo era rigorosa e severa, que todos tinham de orientar-se para o mesmo fim, ganhar dinheiro e não dar nas vistas, o irmão do Hugo perdera dinheiro e dera nas vistas, frequentando um Casino -- este o seu pecado; o pai do Hugo fora sincero, repreendendo o filho por ter humilhado o nome da família por toda a Lisboa e Cascais, frequentando antros nocturnos [...].
O Último Minuto na Vida de S., Matosinhos, Quidnovi, 2007, p. 69.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

linhas de cascais - Ferreira de Castro



-- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia antiaérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril? Aquilo é que é uma terra bonita! É como um jardim a perder de vista. Só te digo que lá até os pinheiros parecem árvores mansas! Nalguns, as roseiras trepam por eles arriba até chegar mesmo aos galhos. E todas as estradas são mais limpinhas do que o chão de uma igreja! Nas horas de dispensa, eu nunca me fartava de ver aquilo. Há lá automóveis por toda a parte e pessoas que falam o raio de umas línguas que a gente não percebe nada...
A Lã e a Neve, 15.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990, p. 18.
 
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