falamos da chuva e da história e das catástrofes, mas eu aqui
estou, sem renunciar ao meu conforto e nem sequer a alguma
boa consciência, a alguma propensão para o consumo.
europeu e burguês, liberal e decadente, ne du tout fol ne du tout sage,
nem excessivamente solidário, nem excessivamente cúmplice,
tive amores e desamores, amarguras, negligências,
problematizei, exaltei-me e deprimi-me variamente,
e uma ordem do mundo é para mim como a colunata de piero,
modulada num espaço da razão: os sentimentos,
o mais lancinante, o mais prosaico, o mais sublime,
tornam-na deste mundo, apenas dele. e eu persisto
nas minhas contradições e nada vou mudar
no que não muda. passeio pelas manhãs de cascais
na luz molhada do inverno, e essa é a dimensão salina
das gaivotas e da maresia nas almas dos que dão
a volta dos tristes junto ao mar, entre heródoto e o
new york review of books. e todavia a música persiste,
enlaçando os destinos e o lugares, e vibra em mim,
que a trauteio e recuso, reconheço e deslembro,
interrompo e retomo, e há marcas na areia fosca,
onde as ondas se encovam regredindo, e vários pedregulhos,
lá em baixo, e os limos das coisas indecufráveis,
negros esgorregadios, frisados, repugnantes
quando vistos de perto na sua hirsuta qualidade.
tudo se faz dessas recitações, marulhos, roncas e
buzinas a entrarem-me pelo espaço da casa, como
sombras num halo dúbio dos espelhos, tensas,
misturadas memórias a desoras. uma carta no inverno
também é um golpe de misericórdia, traz clandestinamente
vaivéns, contrariedades, resistências, fluxos.