terça-feira, 8 de junho de 2010

Luís Cardim (Cascais, 1879 -- Porto, 1958) - OS PROBLEMAS DO «HAMLET» E AS SUAS DIFICULDADES CÉNICAS (1949)

Intróito
A ideia motriz da série de artigos que, depois de publicados na Seara Nova, se reuniu sob novo e talvez mais justificado título, no presente livrinho, veio-nos realmente ao espírito, como se deduz do seu subtítulo, ao vermos a película de Sir Laurence Olivier, e por ela nos ter despertado reminiscências de antigas leituras.
Luís Cardim, Os Problemas do Hamlet e as Suas Dificuldades Cénicas (A Propósito do Filme de Sir Laurence Olivier), Lisboa, Seara Nova, 1949, p. 9.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

linhas do horizonte - Bernardo de Passos




AMBICIOSA

À Beira-Mar

Noivam por esse espaço, aos bandos, as gaivotas,
Despertando na alma alegrias ignotas;
E a névoa da manhã, como um véu transparente
Envolve o mar e a praia cariciosamente...
A estrela d'alva brilha, através da neblina,
Como a luz d'um altar, velado a gaze fina,
E o mar, feliz, brutal, sob o lençol da bruma,
Leva aos seios da praia os lábios em espuma...
O mar é generoso, e por isso a praia o ama...
Despojos e riqueza, embora ronco brama,
Tudo oferece à esbelta e tentadora amante,
Que o colo nu lhe estende aos braços, palpitante...
Agora ostenta ela um soberbo colar
De brilhantes, rubis e pérolas sem par...

Eu tenho inveja ao mar, que além d'amor desmaia...
Dize-me: Tu não tens, também, inveja à praia?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

linhas de cascais - Vasco Graça Moura


E foi assim que, três dias depois, eu estava sentado a uma mesa, numa sala com vistas para o mar, a almoçar numa casa perto de Cascais, com uma mulher que vestia casaco de tweed e botas de montar. Teria cinquenta e tantos anos, o cabelo era de um louro acinzentado, os olhos de um cinzento esverdeado, e devia ter sido lindíssima.
Naufrágio de Sepúlveda. Lisboa, Quetzal, 1988, pp. 79-80.

terça-feira, 20 de abril de 2010

linhas do horizonte - João Correia Ribeiro

CONTRADIÇÃO

Amo a tranquilidade e detesto o barulho
É este o meu feitio, o meu modo de ser...
Mas sendo assim como é que eu posso conceber
O amor que tenho ao mar em que altivo mergulho?

É de noite, é de dia, é contínuo o marulho
Das ondas, da ressaca, as pedras a varrer,
Altas cristas lambendo, areias a mover,
Num eterno labor que é todo o seu orgulho!

E eu que adoro o sossego, a paz, a calmaria,
Das coisas e dos ser's, banal contradição!
Admiro horas sem fim toda esta agitação

Que o meu cérebro invade e a minha alma extasia,
Que me ergue o pensamento, a força que me anima,
Cá de baixo da Terra aos altos Céus lá cima.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

A. Fontoura da Costa (Alpiarça, 1869 - Cai Água / S. Pedro do Estoril, 1940) - DEAMBULAÇÕES DA GANDA DE MODAFAR, REI DE CAMBAIA, DE 1514 A 1516 (1937)

Ao preparar a Biografia de Valentim Fernandes (de Morávia) deparou-se-me em Ravenstein a seguinte nota:
«A letter, describing a rinocheros wich garcia de Noronha had brought from India in 1513, was written by Ferdinando to his «friends» at Nuremberg and is published by Count Angelo de Gubernatis (Storia dei Viaggiatori Italiani, Livorna, 1875, p. 389). An engraving of this rinocheros by Albert Dürer is to be found at the British Museum (Add. MSS. 5220, f. 19)» (1)
(1) E. G. Ravenstein [Martin Behaim. His life and is globe. London, 1908] -- 25. Note 4, pág.2.
A. Fontoura da Costa, Deambulações da Ganda de Modafar, Rei de Cambaia, de 1514 a 1516, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937, p. 5.

terça-feira, 23 de março de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

José da Cunha Brochado (Cascais, 1651 - Lisboa, 1733) - PARECER DO ACADEMICO JOSEPH DA CUNHA BROCHADO (1721)

PARECER DO ACADEMICO JOSEPH DA CUNHA BROCHADO SOBRE A PROPOSTA QUE O ACADEMICO O PADRE DOUTOR FREY BERNARDO DE CASTELLOBRANCO -- CHRONISTA MÓR DO REYNO -- QUE TEM O EMPREGO DE ESCREVER AS MEMÓRIAS DELREY D. PEDRO I -- FEZ SOBRE ESTE PRINCIPE MERECIA O EPITHETO DE CRUEL, OU DE JUSTIÇOSO

Por ordem dos Excellentissimos Senhores Censores sou obrigado a interpor o meu parecer sobre a duvida proposta pelo M. R. P. Fr. Bernardo de Castellobranco, que deseja saber, se na Historia, que escreve da vida delRey D. Pedro, deve qualificar este principe de cruel, ou de justiçoso. Os epithetos são bem irreconciliavaeis, e a mesma ambiguidade na eleição do partido podia resolver melhor o animo do Escritor.
Apud Ferreira de Andrade, Cascais -- Vila da Corte, edição fac-similada [1964], Cascais, Câmara Municipal, 1990, p. LXXXVI.

sábado, 16 de janeiro de 2010

linhas de cascais - Manuel Mozos

Foi no verão de 1973, numa matinée entre dois gelados do Santini, que vi no antigo Cinema São José, Cascais, «Junior Bonner -- O Último Brigão». Eu tinha 14 anos e era o primeiro filme que via de Sam Peckinpah.
«Uma montanha chamada Peckinpah» Ípsilon, 15 de Janeiro de 2010, p. 22.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

linhas de cascais - Teolinda Gersão


Desde que comecei a sair com o pai da Susana e a encontrar-me com ele num apartamento que um amigo lhe empresta, no Estoril, comecei a escutar às portas.
«Bilhete de avião para o Brasil«, Histórias de Ver e Andar, 3.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005, p. 133.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um presente de Natal antecipado

Ao fim de oito dias, e depois de três noites ao relento, o Charlie reapareceu, graças a uma família que gosta de animais.
No sábado passado saímos todos em família para ver o «Up», que a minha filha mais nova andava a pedir há tempos. Deixei, inadvertidamente, o portão mal fechado. Quando chegámos, nem sinal do Charlie. Não sabíamos se desaparecera há muitas ou poucas horas. A primeira reacção foi metermo-nos no carro, eu com dois dos meus filhos, e gritarmos por ele nas povoações vizinhas ao Cobre: Birre, Pampilheira, Torre, Bairro Santana, Encosta da Carreira, Bairro da Assunção, Bairro da Caixa, Bairro J. Pimenta... Nada. Devemos ter andado perto, pois dois dias mais tarde soube que ele terá sido avistado no Bairro Santana, a correr pelo meio da estrada.
Graças à rápida assistência da Fundação São Francisco de Assis, que me encaminhou para o magnífico site Encontra-me, pude elaborar, sem a mínima dificuldade, os cartazes de ocasião. Sempre vi muitos espalhados por aí, e nunca acreditei grande coisa na sua eficácia. Enganava-me redondamente. Ainda só espalháramos meia dúzia, um dos quais posto por uma pessoa amiga no mini-mercado da Charneca, quando, hoje de manhã, tínhamos uma mensagem de alguém que recolhera o Charlie.
Sei agora que ele andou por aqui, num raio de dois-três quilómetros, indo parar a um local entre o Guincho, a Areia e a Charneca. Quando foi avistado por uma senhora desta última aldeia, estava esgotado e sem forças; passara três noites à chuva e ao frio. Uma família, com mais cães, recolheu-o; dias depois viu o anúncio e o Charlie cá está.
Agradeço a todos quantos se preocuparam, e, aqui na "Caverna", especialmente a A. João Soares, A. M. Sousa, Ana, Ana Abrantes, Ana V., Anamar, Austeriana, Brígida Rocha Brito, Carminho, José Manuel Fonseca, Manuel Matos Nunes, Maria, Maria de São Pedro, Nelson Reprezas, Nuno Lebreiro , O Ovo Estrelado, Papoila, Paulo Ferrero, Sofia
Um forte abraço.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Alguém viu o Charlie?

O Charlie tem 4 anos. Desapareceu no Sábado, 28 de Novembro, no Cobre, Cascais. Tem pêlo castanho tigrado com uma pequena mancha branca no peito. É magro (tem leishmaniose) e tem as orelhas pendentes. É dócil. Se o vir ou souber de alguma informação sobre o seu paradeiro, por favor avise-me, aqui no blogue ou para o mail: tmaria_alves@hotmail.com. Obrigado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A. H. de Oliveira Marques (Cai-Água / S. Pedro do Estoril, 1933 - Lisboa, 2007) -- GUIA DO ESTUDANTE DE HISTÓRIA MEDIEVAL PORTUGUESA (1964)


PREFÁCIO
Este Guia vai directamente inspirado no livrinho precioso de Louis Halphen, Initiation aux Etudes d'Histoire du Moyen Age, que lhe serviu de modelo. Há muito tempo que se reconhecia a necessidade de uma obra de iniciação aos estudos de história medieval, como aliás de toda a história portuguesa. Carecia o nosso estudante -- e a palavra vai empregada aqui na sua mais lata acepção -- de um manual pequeno e acessível, que lhe desse notícia das principais fonte e estudos publicados, o pusesse em face dos problemas fundamentais a tentar resolver e o iniciasse nas fainas árduas e aparentemente herméticas da investigação.
A. H. de Oliveira Marques, Guia do Estudante de História Medieval Portuguesa, 3.ª edição, Lisboa, Editorial Estampa, 1988, p. 21.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

David Byrne, a propósito do Estoril Film Festival

«Estoril, Portugal -- The Future, the Past, the Present and...» -- anotações no seu Journal.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fernando Lopes-Graça (Tomar, 1906 - Parede, 1994), INTRODUÇÃO À MÚSICA MODERNA (1942)

ADVERTÊNCIA PRELIMINAR

De maneira nenhuma este ensaio pode ser, nem pretende ser, um estudo exaustivo dos problemas que levantou, e levanta ainda, a música destas quatro primeiras décadas de século XX. Não pode sê-lo porque a índole desta biblioteca o não permite; e ainda que o permitisse, quem não poderia pretender levara tarefa a cabo é o seu autor, porque ela estava fora das suas preocupações dominantes. E aqui teme ele mais uma vez de fazer a declaração de não ser musicólogo -- palavra que o assusta, pelas reponsabilidades que o impõe a quem se adorna com ela. Os problemas musicais interessam-no na medida em que, satisfazendo uma das curiosidades do seu espírito, o ajudam a compreender e a resolver os seus próprios problemas de músico sobretudo prático que é. Se escreve, se especula ou teoriza acerca da música (e, contra a sua íntima vontade, bastantes vezes o tem que fazer), é isso devido, antes de mais nada, a razões puramente circunstanciais: umas, não têm aqui que ser invocadas; outras são as que advêm da falta de coragem que muitas vezes há em opor um não a solicitações que são feitas, já em nome da amizade, já em nome dos princípios morais e culturais que defendemos; outras, ainda, -- e estas são as razões que mais desejaríamos não constituíssem uma razão -- residem no impulso irreprimível que frequentemente nos assalta de saírmos com a pena a defender a música das mentiras, tranquibérnias e despautérios com que constantemente a aviltam os próprios que se dizem seus servidores, seus sacerdotes, seus entendedores feros e esclarecidos.

Fernando Lopes-Graça, Introdução à Música Moderna, 2.ª edição, Lisboa, Cosmos, 1946, pp. 5-6.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

poesia de cascais #20 - José Jorge Letria



A TENTADORA VOZ

Passei ontem à porta da casa onde nasci.
Rés-do-chão, fachada de azulejos verdes.
Nada no interior me lembrou a minha
presença naqueles quartos
que foram os da felicidade de meus pais,
num tempo austero e inquieto.
Chamei, mas ninguém respondeu,
nem sequer o eco da minha voz distante
inquirindo ventos, marés e estrelas
sobre o destino dos seres amados.

Um homem pode desdobrar-se, multiplicar-se
até ao limite da imaginação.
Foi o que fiz. E lá estava eu suplicante,
ao colo da minha avó, a perguntar
se a morte tinha cor e cheiro
e se os lobos da sua aldeia longínqua
não eram tão temíveis como os das gravuras
dos livros que me assombravam as noites.

Eram os anos do pós-guerra,
da paz minguada pela tristeza dos dias.
Eu descia, apertando as mãos dos meus pais,
até ao centro da vila, e tinha, como sempre,
o mar em frente a chamar por mim
com a tentadora voz do que não tem nome.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cascais no Campo da »Seara»: Proença, Cortesão e Reys (1)

A Bernard Emery
«Só há uma maneira de ter
cultura -- é fazê-la»
Raul Proença (1)
«Venho de percorrer muitos dos
caminhos do mundo.
Mas, através de hesitações e quedas,
sempre a luz me bateu de frente
no rosto. Já me sacrifiquei pelos
homens todos, pela beleza da
vida. Posso falar.» (2)
1. A Seara Nova: ou o patriotismo emergente do lodo
Cascais e o Estoril mereceram algumas linhas a três membros proeminentes da Seara Nova, que se constituíram ao mesmo tempo como «comissão política» da publicação. Raul Proença (1884-1941), Jaime Cortesão (1884-1960) e Câmara Reys (1885-1961). O primeiro, nas páginas do Guia de Portugal; o segundo, numa crónica ao seu melhor estilo épico; o último, numa obscura e para nós inexplicável edição de autor, ilustrada por Carlos Botelho. Motivos mais do que suficientes para sobre eles (textos e autores) nos debruçarmos brevemente, dando sequência a uma tentativa de levantamento do património literário cascaense.
(1) Apud José Rodrigues Miguéis, Uma Flor na Campa de Raul Proença, Lisboa, Bilbioteca Nacional, 1985, p. 21.
(2) «Cartas à Mocidade.I -- Queres ser um homem?», Seara Nova, n.º 3, Lisboa, 20 de Novembro de 1921, in Sottomayor Cardia (ed.), Seara Nova. Antologia. Pela Reforma da República, 1921-1926, vol. II, Lisboa, Seara Nova, 1972, p. 151.
Sol XXI, n.º 29-30-31, Carcavelos, Jun./Set./Dez. de 1999, p. 96.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 1905 - Malveira da Serra, 1974), RELATÓRIO DO CONSERVADOR DO MUSEU-BIBLIOTECA DO CONDE DE CASTRO GUIMARÃES (1943

Nomeado conservador do Museu-Bilbioteca do Conde de Castro Guimarães em 23 de Dezembro de 1941, tomei posse deste cargo em 2 de Janeiro do ano seguinte. A Comissão Administrativa informou-me pormenorizadamente acerca da vida do Museu nos últimos anos, e da orientação geral que conviria dar a certos serviços. Sugeri, então, à Comissão que se fizesse um Regulamento, ficando a meu cargo a elaboração desse projecto, o qual, inspirado em outros estatutos afins, de que é, em grande parte, apenas uma transcrição adaptada aos serviços deste Museu, foi presente à sessão de 5 de Julho de 1942. Foi encarregado da sua revisão o Vogal-Cultural, Sr. Luís Varela Aldemira, que numa das primeiras reuniões a que assistiu, também frisara a necessidade de se elaborar um regulamento, e que o modificou e melhorou em muitos artigos, principalmente na arrumação de certos assuntos, sendo definitivamente aprovado na reunião de 4 de Novembro de 1942, e entrando em vigor nessa data.


Branquinho da Fonseca, Relatório do Conservador do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Luís Cardim (Cascais, 1879 - Porto, 1958), ATRAVÉS DA POESIA INGLESA (1939)

[Conferência proferida no Clube Fenianos Portuenses, em 5 de Agosto de 1938]
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores:
Perguntou alguém um dia a Sócrates, «porque tinha feito uma casa tão pequena»; e o filósofo respondeu, «que bem quisera vê-la cheia de verdadeiros amigos». Esta sala é bastante grande, a quadra estival vai adiantada, convidando mais ao silêncio dos campos, ou ao bulício das ondas, do que a ouvir importunas prelecções, e por isso eu, embora tão longe de Sócrates em todos os sentidos, não posso deixar de ver em V. Ex.as, em todos os presentes -- amigos bem verdadeiros. E quando não tenham vindo aqui por cativante bondade para comigo, mas por interesse pelas letras -- sendo amigos das letras, meus amigos também são. Muito e muito obrigado.
Luís Cardim, Através da Poesia Innglêsa (Apresentação dalgumas Traduções), Porto, Clube Fenianos Portuenses, 1939, p. 5.

domingo, 13 de setembro de 2009

poesia de cascais #19 - Vasco Graça Moura



falamos da chuva e da história e das catástrofes, mas eu aqui
estou, sem renunciar ao meu conforto e nem sequer a alguma
boa consciência, a alguma propensão para o consumo.
europeu e burguês, liberal e decadente, ne du tout fol ne du tout sage,
nem excessivamente solidário, nem excessivamente cúmplice,

tive amores e desamores, amarguras, negligências,
problematizei, exaltei-me e deprimi-me variamente,
e uma ordem do mundo é para mim como a colunata de piero,
modulada num espaço da razão: os sentimentos,
o mais lancinante, o mais prosaico, o mais sublime,

tornam-na deste mundo, apenas dele. e eu persisto
nas minhas contradições e nada vou mudar
no que não muda. passeio pelas manhãs de cascais
na luz molhada do inverno, e essa é a dimensão salina
das gaivotas e da maresia nas almas dos que dão

a volta dos tristes junto ao mar, entre heródoto e o
new york review of books. e todavia a música persiste,
enlaçando os destinos e o lugares, e vibra em mim,
que a trauteio e recuso, reconheço e deslembro,
interrompo e retomo, e há marcas na areia fosca,

onde as ondas se encovam regredindo, e vários pedregulhos,
lá em baixo, e os limos das coisas indecufráveis,
negros esgorregadios, frisados, repugnantes
quando vistos de perto na sua hirsuta qualidade.
tudo se faz dessas recitações, marulhos, roncas e

buzinas a entrarem-me pelo espaço da casa, como
sombras num halo dúbio dos espelhos, tensas,
misturadas memórias a desoras. uma carta no inverno
também é um golpe de misericórdia, traz clandestinamente
vaivéns, contrariedades, resistências, fluxos.
 
Golf
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