sexta-feira, 2 de maio de 2014

linhas de Cascais - Alves Redol

«Só dois homens estariam aptos a flutuar, ao que depois se averiguou. Julinha Quintela explicou a Miguel e à mulher, muito enciumada com o devaneio marital, que já estivera em Cascais três horas dentro de água. Era uma delícia.»

Barranco de Cegos (1961)


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

poesia de cascais - António Torrado


DONA VANDA

Dona Vanda
Vitorino
de Verdasca
Vale Velez
deu um berro
Vasconceeeelos!
que se ouviu
em Carcavelos.

Veio a vila
toda vê-la.
Só não veio
o Vasconcelos
que não estava
em Carcavelos.

in Maria de Lourdes Varanda & Maria Manuela Santos, Poetas de Hoje e de Ontem -- Do Século XIII ao XXI para os Mais Novos, s.l., Edições Chimpanzé Intelectual, 2007.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Nadir Afonso (Chaves, 4.II.1920 -- Cascais, 11.XII.2013)

O grande Nadir Afonso, tão cosmopolita, tão único, tão ligado a Cascais.

P&R [pergunta e resposta] - Pedro Burmester

Porque é que depois, no meio de um programa clássico, incluis Fernando Lopes-Graça, que nunca tinhas tocado, e Gyorgy Ligeti, dois compositores mais contemporâneos?  Lopes-Graça é um compositor extraordinário. Um dos mais importantes vultos da cultura portuguesa do século XX, a par de um Pessoa, ou de um Saramago. Não é um compositor fácil, nem para tocar, nem para ouvir. Não cede nunca a facilitismos, muito coerente, muito sério no seu trabalho, com um conhecimento da escrita incrível, e que vai beber quase sempre à grande riqueza da música tradicional portuguesa. Simbolicamente, esta é a primiera obra que escreve para piano, em 1923. Portanto, é uma obra já com quase 100 anos. Mas já lá está tudo. É uma variação sobre um tema tradicional português, que ele não explica qual é. Espero que esta seja a primeira de mais obras de Lopes-Graça que gostaria de tocar no futuro.
Entrevista a Valdemar Cruz, Expersso / Actual #2145, 7.XII.2013.

sábado, 14 de setembro de 2013

poesia de cascais - Ibn Mucana

1. - Ó tu que habitas Alcabideche, não te faltará o grão nem terás escassez de cebolas, nem de abóboras!
2. - Se és homem enérgico não te faltará a nora das nuvens, sem necessidade de mananciais,
3. - pois a terra de Alcabideche, quando o ano é bom, não produz mais que vinte cargas de cereais,
4. - e se der alguma coisa mais, chegam as manadas de javalis reiteradamente.
5. - Há pouca coisa útil nesta terra, como em mim próprio que sou duro de ouvido.
6. - Deixei os reis cobertos com os seus mantos, deixei de ir em seus cortejos.
7. - Converti-me em Alcabideche em colhedor de espinhos com uma foice guarnecida e afiada.
8. - E se me perguntam: Gostas? Respondo-lhes: "O amor à liberdade faz parte do carácter nobre".
9. - O apreço e os benefícios de Abu Bakr al-Muzaffar conduziram-me até aqui, à minha morada.

versão de María de Jesús Rubíera Mata
(trad. Pepita Tristão)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

linhas de cascais - João Gaspar Simões

Desceu em Cascais e foi andando até à beira mar. Não havia lua, mas a noite estava clara. As estrelas irradiavam sobre a terra uma luz de diamante. Tornejou o Museu Castro Guimarães, atravessou a ponte, abeirou-se da falésia. Em baixo, o mar ondulava, possante e negro: parecia uma fera dormindo. Céu e mar confundiam-se. Juvenal nunca tinha visto as estrelas tão baixas no horizonte: entravam, parecia, pelo próprio oceano. Tirou o chapéu, ergueu a cabeça para o alto. A brisa, repassada de maresia, enchia-lhe o peito. Veio-lhe, de repente, uma ânsia insofrida de ar livre, de imensidão, de paz no seio da natureza! Por entre os troncos contorcidos via brilhar, ao longe, os lampiões da Costa do Sol. Dir-se-iam outras tantas estrelas, mais pálidas, que o mar prolongasse de reflexos.

Pântano (1940)

sábado, 25 de maio de 2013

linhas de cascais: Francisco Costa


Em certo dia do reinado de D. João I, talvez nesse período atribulado e heróico das guerras com Castela, dois velhinhos dos arredores de Lisboa foram avisados em sonho de que a Virgem Santíssima lhes apareceria num local distante e deserto.

[...] Ele era de Alcabideche, uma das aldeias da planície onde os ventos se precipitam das penhas nevoentas de Sintra. E indiferente aos rigores do tempo e às fadigas, lá foi de terra em terra, inquirindo e esmolando, esfarrapado, com o corpo sujo de pó e de lama, e a alma cheia de luz.
[...]
A fé ganhou também cidade; subiu aos paços reais e aos paços eclesiásticos. No começo do século XVII, um rapaz de Carnaxide e uma velhinha de Alcabideche, instruídos apenas pela sua ardente fé, organizaram a Confraria de Nossa Senhora do cabo, formada por 30 freguesias do termo de Lisboa.
[...]
A encantadora origem deste culto por Nossa Senhora do Cabo, a forma enternecedora como a suave posse da Santa Imagem se reparte por igual numa área tão vasta e populosa, demonstram que o espírito dos povos saloios -- tão mal compreendido, tão caluniado por vezes -- é bem capaz de elevação e delicadezas comoventes. [...]

«Aparição e culto de Nossa Senhora do Cabo -- Uma criação da alma saloia» (1937)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

linhas de cascais - Mário Cláudio

Porto, sexta-feira, 11 de Maio de 2012
Morre em estranhas circunstâncias Bernardo Sassetti, o autor da música de "Retrato", cantado por Carlos do Carmo, sobre poema meu. Despenhado numa falésia da Praia do Guincho, quem sabe se voluntariamente, por por mal de amor, leu o que eu não li nas minhas linhas, e inventou-me um clima que afinal era meu.

«Diário», JL_Jornal de Letras, Artes e Ideias, #1110, Lisboa, 17 de Abril de 2013.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

linhas de cascais - Miguel Sousa Tavares

Mas, num final de tarde, escapamos do palácio à beira-mar e do seu enredo e apanhamos um táxi para Mondello, uma espécie de Cascais de Palermo, só que parada no tempo e não dizimada pelos comendadores do betão armado.

«Regresso ao lugar do espanto», 2013.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

poesia de cascais - Afonso Duarte

Já meu reino foi calvário
Lá nos mares da Taprobana
Nem tocou a igual sudário
A trombeta castelhana.
Se, como rosas de Abril,
Tem as praias do Estoril,
Já meu reino foi calvário.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

linhas de cascais - José Marmelo e Silva

Que sanguessuga, não calculam! De nada me valia mudar de quarto ou de café. Tinha um faro verdadeiramente policial. Perseguia-me tenazmente na Baixa, no Estoril, no Arcádia. Quantas vezes contrafeito me levara! A carraça! Estou a vê-la. Um belo lábio longo, entumecido, soberbo.

Depoimento (1939)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

linhas de cascais - Sarah Adamopoulos

Ela nunca o tinha visto na vida. Olhou em redor e tentou adivinhar. Não, não podia ser aquele. Aquele era um homem que tinha o cabelo louro e uma camisa às risquinhas. Tinha também uns sapatos com berloques. Cascais casual look.

A Vida Alcatifada (1997)

sábado, 12 de janeiro de 2013

linhas de cascais - Jorge Amado

O ministro recordaria o facto certamente, datava apenas de um ano: o então conselheiro da embaixada fora preso pela polícia lusitana quando, bêbado como uma cabra, tomava banho nu na praia elegante do Estoril, à meia-noite, em companhia da esposa do ministro salazarista das Obras Públicas, nua ela também, sem ter sequer longos cabelos com que cobrir o corpo «como o fazia Eva no Paraíso».

Os Subterrâneos da Liberdade -- I Os Ásperos Tempos (1954)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

linhas de cascais - José Saramago

«O Chico anda agora influidíssimo com uma bailarina inglesa do Casino do Estoril, e ninguém o vê. Telefona-me às vezes para se gabar -- e que bem que ele sabe gabar-se.»

Manual de Pintura e Caligrafia (1977)

domingo, 25 de novembro de 2012

Histórias da História de Cascais

O livro será de 1998, mas só há pouco o li. Esplêndido livrinho de Maria da Graça Pessoa de Amorim e Isabel Minhós Martins, texto corrido e adequado para crianças a partir dos 8/9 anos; as ilustrações são um mimo e ganhariam em ser coloridas, como se vê pelo barrigudo D. Carlos da capa... Numa nova edição, que deverá ser um pouco mais cuidada, é conveniente identificar autoras: quem escreve e quem desenha.
Recomendo vivamente.

P.S. Se alguém quiser ver o verdadeiro rosto do grande Ibn Mucana, vá à página... Bolas, não estão numeradas! Mas vá, que a obrinha é pequena e encontra-o num instante. :)

linhas de Cascais -- Sérgio Luís de Carvalho

«No bairro de S. Pedro, no caminho para o Ramalhão, está a gafaria de Sintra. O cemitério onde os que sofrem do mal de S. Lázaro são enterrados é um pouco mais à frente. Coisa comum é os gafos postarem-se junto à estrada que vai para Lisboa e para Cascais, pedindo esmola àqueles que passam.»

Anno Domini 1348 (1990)

terça-feira, 31 de julho de 2012

linhas de cascais - Diogo Freitas do Amaral

No último JL, depoimentos sobre férias:
«O tempo de férias era passado, em Julho e Agosto, numa pequena casa alugada em Cascais e, em Setembro, na "Casa da Eira", perto de Guimarães. Em Cascais, ia à praia de Nossa Senhora da Conceição e, a partir dos 14 ou 15 anos, à magnífica praia do Guincho (para mim, a mais bonita do mundo e, quando não há vento, a melhor).
[...]
Como aluno da Universidade, tudo mudou: as férias do verão eram passadas (à parte o banho rápido no Guincho) a estudar para os exames de Outubro.»

«Descansar, estudar e preparar», JL # 1091, Lisboa, 25 de Julho de 2012.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CASCAIS NO CAMPO DA «SEARA»: PROENÇA, CORTESÃO E REYS (3)

Jaime Cortesão assumira em 1919 a direcção da Biblioteca Nacional, substituindo Fidelino de Figueiredo (1889-1967), comprometido com o sidonismo, e que regressaria ao posto, por breve período embora,com o 28 de Maio, e em ruptura com os mais proeminentes elementos daquela instituição: Raul Proença, chefe da Divisão dos Serviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo-bibliotecário, e ainda Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos, vindo a desempenhar as funções de secretário-geral da CGT e director de A Batalha.

Sol XXI # 29/30/31, Carcavelos, 1999. 

o «Grupo da Biblioteca»: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão (sentados);
Faria de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reys

terça-feira, 19 de junho de 2012

JOSÉ DA CUNHA BROCHADO NA CORTE DE LUÍS XIV (3)

Formado em Leis pela Universidade de Coimbra, juiz do Cível e do Desembargo do Paço, fundador e presidente da Academia Real da História Portuguesa, criada por D. João V, fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, chanceler das ordens militares, membro do Conselho do «Magnânimo», do Conselho da Rainha D. Maria Ana de  Áustria (pertencera já ao Conselho da Fazenda no reinado de D. Pedro II), enviado extraordinário da Coroa portuguesa às cortes de Paris, Londres e Madrid, Brochado pertence à estirpe notável de um Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680), um Diogo de Mendonça Corte-Real (1662-1749), um Alexandre de Gusmão (1695-1753), homens simultaneamente de pensamento e acção política em que o período foi fértil, e que na esteira de António Sérgio e Jaime Cortesão costumamos designar por estrangeirados.

José da Cunha Brochado na Corte de Luís XIV, Cascais, edição minha, 1999.

(imagem
 
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