A Alma Trocada (2007)
Léxico: «sopa seca»
Há 2 horas
Cascais é a caverna do velho Éolo, rei dos Aquilões - Eça de Queirós
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«À janela do seu quarto do elegante bungalow do Estoril, Nina olhava o mar. O sol doirado e suave dos primeiros dias de Verão caía lentamente e deixava atrás de si uma faixa luminosa que brilhava sobre o azul transparente e brilhante do mar. A brisa vinda de longe enrugava levemente as águas, varria a areia e corria sobre a terra fazendo baloiçar as árvores dos parques e jardins. A tarde ia a meio e Nina acabava de se arranjar nesse momento. Esperava visitas. Contra o seu hábito, naquela tarde arranjou-se mais cedo. Quando olhou para o relógio e viu que não eram ainda horas dos convidados começarem a chegar, abriu a janela e debruçou-se à varanda. A luminosidade da tarde e o azul do mar deram-lhe uma sensação de tranquilidade. Nina gostava da luz do mar. Sentou o desejo de sair de casa, despir-se e correr sobre a areia, correr junto da água. Inclinou a cabeça, deixou que a brisa lhe desprendesse os cabelos e fixou os olhos ao longe... no oceano.»
«O almocreve andava constantemente naquele vaivém de mercador, correio, estafeta e distribuidor -- um dia para ir, outro para regressar --, feito em grande parte pelos caminhos tortuosos da serra. Conhecia-lhe a rotina desde que há muitos anos, criança ainda, começara a acompanhar o pai naquela dura lida: abalada do terreiro da vila, junto ao paço real, pelo meio da manhã, com a carroça carregada e machos bem alentados para a jornada; passagem pelas várias aldeias que havia no caminho entre as suas vilas -- Azóia, Biscaia (lugar altaneiro este e voltado ao mar, onde costumava jantar num albergue que lá havia), Malveira da Serra, Aldeia de Jus[o], Birre..., e chegada ao largo do pelourinho de Cascais, pelo cair da tarde.»