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terça-feira, 6 de agosto de 2013

linhas de cascais - João Gaspar Simões

Desceu em Cascais e foi andando até à beira mar. Não havia lua, mas a noite estava clara. As estrelas irradiavam sobre a terra uma luz de diamante. Tornejou o Museu Castro Guimarães, atravessou a ponte, abeirou-se da falésia. Em baixo, o mar ondulava, possante e negro: parecia uma fera dormindo. Céu e mar confundiam-se. Juvenal nunca tinha visto as estrelas tão baixas no horizonte: entravam, parecia, pelo próprio oceano. Tirou o chapéu, ergueu a cabeça para o alto. A brisa, repassada de maresia, enchia-lhe o peito. Veio-lhe, de repente, uma ânsia insofrida de ar livre, de imensidão, de paz no seio da natureza! Por entre os troncos contorcidos via brilhar, ao longe, os lampiões da Costa do Sol. Dir-se-iam outras tantas estrelas, mais pálidas, que o mar prolongasse de reflexos.

Pântano (1940)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um escândalo póstumo -- A candidatura de Fernando Pessoa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (4)

Em 1927 dera-se algo de novo no panorama literário português, que João Gaspar Simões reputou -- e com justeza, embora ele estivesse sendo juiz em causa própria (4) -- de essencial para que Pessoa encarasse de uma forma nova o seu destino literário e -- por consequência -- pessoal. Em 10 de Março desse ano surgia a presença -- folha de arte e crítica, dirigida por José Régio (1901-1969), Branquinho da Fonseca (1905-1974) e Gaspar Simões (1903-1987). E no manifesto de abertura, para uma «literatura viva», assinado pelo autor dos Poemas de Deus e do Diabo, já estava presente o lugar do futuro autor da Mensagem no seio da segunda geração modernista. Proclamava-se:


«Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso                 mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. E é apenas por isto que os autos de Gil Vicente são espantosamente vivos, e as comédias de Sá de Miranda irremediavelmente mortas; que todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto; que os sonetos de Camões são maravilhosos, e os de António Ferreira maçadores; que um pequeno prefácio de Fernando Pessoa diz mais que um grande artigo de Fidelino de Figueiredo; que há mais força íntima em catorze versos de Antero que num poemeto de Junqueiro; e que é mais belo um adágio popular do que uma frase de literato.» (5)

(4) Ibidem, pp. 98-99.
(5) José Régio, «Literatura viva», presença #1, Coimbra, 10 de Março de 1927, ed. facsimilada, vol. I, Lisboa, Contexto, 1993.


Sol XXI #24, Carcavelos, Março de 1998, p. 9.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um escândalo póstumo a candidatura de Fernando pessoa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (3)

Havia pouco, fora mal sucedido na candidatura ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães.

As motivações

A obra de Fernando Pessoa persistia dispersa por várias publicações, não havendo o corpus indispensável que a tornasse acessível a um público mais vasto, impedido, assim, de conhecer a singularidade de um poeta que se desdobrava, para já, em quatro.
in Sol XXI #24, Carcavelos, Março de 1998.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 1905 - Malveira da Serra, 1974), RELATÓRIO DO CONSERVADOR DO MUSEU-BIBLIOTECA DO CONDE DE CASTRO GUIMARÃES (1943

Nomeado conservador do Museu-Bilbioteca do Conde de Castro Guimarães em 23 de Dezembro de 1941, tomei posse deste cargo em 2 de Janeiro do ano seguinte. A Comissão Administrativa informou-me pormenorizadamente acerca da vida do Museu nos últimos anos, e da orientação geral que conviria dar a certos serviços. Sugeri, então, à Comissão que se fizesse um Regulamento, ficando a meu cargo a elaboração desse projecto, o qual, inspirado em outros estatutos afins, de que é, em grande parte, apenas uma transcrição adaptada aos serviços deste Museu, foi presente à sessão de 5 de Julho de 1942. Foi encarregado da sua revisão o Vogal-Cultural, Sr. Luís Varela Aldemira, que numa das primeiras reuniões a que assistiu, também frisara a necessidade de se elaborar um regulamento, e que o modificou e melhorou em muitos artigos, principalmente na arrumação de certos assuntos, sendo definitivamente aprovado na reunião de 4 de Novembro de 1942, e entrando em vigor nessa data.


Branquinho da Fonseca, Relatório do Conservador do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.

domingo, 16 de agosto de 2009

Um escândalo póstumo -- A candidatura de Fernando Pessoa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães (2)

Este período, de acordo com o seu mais conhecido biógrafo, caracterizou-se por uma grande perturbação do foro psíquico. Ao mesmo tempo, era atormentado pela urgência da organização da obra dispersa e inédita, numa corrida contra o tempo, que ele sabia faltar-lhe. (3)
(3) Ver João gaspar Simões, Fernando Pessoa. Breve História da Sua Vida e da Sua Obra, Lisboa, Difel, 1983, p. 98.
Sol XXI, n.º 24, Caracavelos, Março de 1998, p. 8.
(continua)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Branquinho da Fonseca

Colecção «Memória de Cascais», n.º 2
Câmara Municipal de Cascais, 1997

sábado, 22 de março de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e hitoriadores em Cascais (8)

Itinerário de Branquinho da Fonseca: da vila à serra, com terminal na Guia

João Gaspar Simões e António José Branquinho da Fonseca (Mortágua, 1905 -- Malveira da Serra, 1974) são dois nomes indissociáveis por razões culturais e percurso de vida, com encontros e desencontros que extravasam o âmbito deste artigo. Tendo já sido referida a revista presença, diga-se apenas que o seu percurso comum se iniciou uns anos antes, ainda nos bancos do liceu em Coimbra. (31) A acção e a presença de Branquinho da Fonseca em Cascais merecem, mais que um artigo, um estudo monográfico. A sua actividade como director do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães -- nomeado em 20 de Dezembro de 1941 e tomando posse a 2 de Janeiro seguinte --, a remodelação e o incremento que lhe deu em número de visitantes, o enriquecimento bibliográfico, a abertura da sala de arqueologia com o riquíssimo espólio das grutas de Alapraia, o arranjo do parque envolvente (32), o arejamento de mentalidades que o seu desempenho proporcionou, culminando com a instituição duma Biblioteca Itinerante que percorria os lugares mais recônditos do concelho -- experiência que, como se sabe, o escritor viria a desenvolver no país inteiro em consequência do convite que lhe fez a Fundação Calouste Gulbenkian para o efeito --, assinalam de forma exemplar a sua missão em Cascais.Licenciado em Direito, acumulava estas funções com a assessoria jurídica na Base Naval de Lisboa. (33)
Poeta e novelista, Branquinho da Fonseca entra na história da literatura como contista de técnica segura e autor de uma obra-prima, O Barão (1942), pelo menos ultimada em Cascais -- assegura-nos uma carta do escritor ao poeta Carlos Queirós, escrita da Rua Manuel Joaquim do Avelar, n.º 1, em 4 de Dezembro de de 1941 (34), vinte dias antes da sua nomeação como conservador do Museu, instalado na velha «Torre de São Sebastião» de Jorge O'Neill:
«Estes velhos palácios, quase abandonados, olho-os sempre, de longe, como um sonho de conforto, de intimidade e de bem-estar: de estabilidade na vida. Independência e sossego, possibilidade de fazer a vida como seja a nosso gosto! Um velho solar de paredes que tenham vivido muito mais do que eu, dessas paredes que têm fantasmas, e em volta um grande parque de velhas árvores, com recantos onde nunca vai ninguém. Viver o tumulto das grandes cidades e depois o silêncio, a solidão desses paraísos abandonados há muitos anos, onde entramos com não sei que inquietação, como quem desembarca numa ilha desconhecida... Ah! Isso, sim, é que me dava outras possibilidades de ser, de compreender, de ir pelo meu caminho.» (35)
Há muitos elementos sobre Branquinho da Fonseca em Cascais que ficarão para um eventual monografia a fazer-se. Neste escorço, refira-se apenas as moradas do escritor, depois do n.º 1 da «Rua do Avelar», residência dos sogros: a «Casa da Vinha Virgem», à Travessa Tenente Valadim, n.º 4 (36) e a «Casa dos 4 Moinhos», na Malveira da Serra, por si mandada edificar e onde viveria os seus últimos dias.
Um outro dado, por quase desconhecido, não pode deixar de ser aqui assinalado. Em pleno Estado Novo, no pós-guerra, quando a vitória dos Aliados obrigou Salazar a um simulacro de elições livres, permitindo a constituição de uma vasta frente de oposição: o Movimento de Unidade Democrática (MUD). Branquinho da Fonseca, apesar das funções públicas que exercia, não se eximiu a ser o organizador do MUD em Cascais, com todos os riscos que tal acarretou, de demissão, prisão ou exílio. (37)
Branquinho da Fonseca está enterrado, ao lado de sua mulher, no Cemitério da Guia (por coincidência, ao lado da campa dos bisavós de quem escreve estas linhas). Os descendentes são munícipes de Cascais.

Notas
(32) João Gaspar SIMÕES, José Régio e a História do Movimento da «presença», Porto, Brasília Editora, 1977 : 97.
(33) Branquinho da FONSECA, Relatório do Conservador do Museu Biblioteca do Conde de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.
(33) Informação prestada pelo seu filho, Tomás Branquinho da Fonseca.
(34) In Boletim Cultural, n.º 1, -VI série, Lisboa, Serviços de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1984 : 35-36.
(35) Branquinho da FONSECA, O Barão, 4.ª edição, Lisboa, Portugália editora, 1962 : 25-26.
(36) Informação de Tomás Branquinho da Fonseca.
(37) José Magalhães GODINHO, Pela Liberdade, Lisboa, Publicações Alfa, 1990 : 46.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e historiadores em Cascais (7)

A Casa do «Dragão da Crítica»
Romancista, ensaísta, memorialista e dramaturgo, João Gaspar Simões (1903-1987) é o crítico por antonomásia, pelas décadas de escrita em que pontificou nos principais jornais do país: Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias, além de muitas outras publicações periódicas. Autor de uma obra vastíssima em que avultam as biografias de Eça de Queirós (1945) e Fernando Pessoa (1950), Simões é também um dos pais fundadores do chamado segundo modernismo português, tendo dirigido com José Régio e Branquinho da Fonseca uma das principais revistas literárias do século XX - a presença.




[a Casa do Dragão em construção, 1942/43]




O novelista de Elói ou Romance numa Cabeça mandou erigir uma magnífica moradia -- encomendando o projecto a um arquitecto local, Joaquim Ferreira (1911-1966) -- situada na Avenida Emídio Navarro. Nela residiu entre 1943 e 1957, período a que respeitam e onde foram redigidas (parcialmente, a primeira) as já referidas biografias marcantes de Eça e Pessoa. É nesta última que se publica pela primeira vez o célebre requerimento de 1932, com que o poeta se candidatou ao lugar de conservador do Museu Condes de Castro Guimarães (26), documentação que lhe foi facultada por Branquinho da Fonseca, então director da instituição. (27)

[.ª edição de Eça de Queiroz -- O Homem e o Artista]
A «Casa do Dragão» foi assim crismada pelo arquitecto, uma vez que a fama de condicionar percursos de livros e autores, mediante uma sua crítica, positiva ou desfavorável, já estava perfeitamente adquirida. O tradicional galo do catavento foi assim substituído por um dragão, pois, segundo Joaquim Ferreira, Gaspar Simões era um autêntico «Dragão da Crítica». (28)


[o catavento do Dragão. Foto de Guilherme Cardoso]






Do muito a que se assistiu dentro daquelas quatro paredes, as memórias e correspondências, entre outras fontes, farão algumas revelações. Para já, registemos uma das primeiras leituras que ali tiveram lugar da peça de Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) -- um dos grandes textos da dramaturgia portuguesa de novecentos -- em 30 de Dezembro de 1944, na presença da actriz Manuela Porto (1908-1950). (29). Leitura de que, dias mais tarde, a 7 de Janeiro, dará notícia ao ensaísta Guilherme de Castilho (1912-1987) -- também com fortes ligações ao concelho de Cascais, de que tratarei noutra oportunidade: «Dos dois actos prontos, fiz três audições privadíssimas (uma na «Casa do Dragão», em Cascais -- bela casa, está-se lá admiravelmente![)]». (30)


NOTAS

(26) Fernando Pessoa -- A Biblioteca Impossível, com prefácio de Teresa Rita Lopes, Cascais, Câmara Municipal, 1995.
(27) João Gaspar SIMÕES, Vida e Obra de Fernando Pessoa, 5.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987 : 592, n.14.
(28) Informação que me foi dada pela filha do escritor, Maria Joana Gaspar Simões Alpuy.
(29) Jorge de SENA, O Indesejado (António, Rei), 3,ª edição, Lisboa, Edições 70, 1986 : 177.
(30) Jorge de SENA e Guilherme de CASTILHO, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981 : 49-50.

domingo, 11 de novembro de 2007

Alexandre Babo

Alexandre Babo (1916-2007) morreu no passado dia 2 de Novembro no Hospital de Cascais. Natural de Lisboa, foi um destacado oposicionista, membro da Maçonaria e militante do PCP. À frente da editora Sirius, publicou Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, com capa de Álvaro Cunhal. Homem de teatro, foi um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto. Autor de várias peças, ensaios, traduções e do interessantíssimo livro de memórias Recordações de um Caminheiro (1993), uma fonte em primeira mão para a história da oposição ao Estado Novo.
Vivia na Parede. Recordo-me de vê-lo assiduamente nas «Conversas de Cascais», iniciativa que coordenei no Museu Condes de Castro Guimarães, entre 1994 e 1997.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Da colecção egípcia do Museu Condes de Castro Guimarães



Seis pequenas peças do Antigo Egipto constituem a colecção do Museu Condes de Castro Guimarães.
Na fotografia, a de mais antiga datação provável (Império Novo), segundo o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, que a estudou.* Trata-se de um escaravelho de faiança com 1,4 cm de comprimento, 1 cm de largura e 0,7 cm de altura, contendo em inscrição o nome do faraó Menkheperré (Tutmés III).
* Luís Manuel de Araújo, «A colecção egípcia do Museu Condes de Castro Guimarães», Arquivo de Cascais, n.º 13, Cascais, Câmara Muncipal, 2005, pp. 11-20.
 
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