Em Maio de 1966, o TEC (Teatro Experimental de Cascais) levou à cena a peça Mar, de Miguel Torga. Carlos Avilez convidara o autor para a estreia, mas este recusara: «a um ensaio-geral gostaria de assistir» -- recordou João Vasco -- evitando «tudo o que fosse "mundanice"».
Mirita Casimiro como "Maria Papolia"
Torga retratado por Pomar
Ao nosso encontro vem Torga, no seu passo apressado, com um rosto granítico, estendendo o seu enorme braço, que diz para Mirita: "Muito prazer em conhecê-la pessoalmente, minha senhora." Mirita olhou-o com aqueles grandes olhos, e contempla, da sua pequena altura, a figura imponente de Torga. Depois apresentou o rapazito que iria representar a sua peça... Encaminhámo-nos pelos becos, direitos ao Teatro Gil Vicente. Limitei-me a ouvir a conversa de Mirita e Torga. Falaram de Viseu, da dinastia dos Casimiros, de S. Martinho de Anta, do sol radiante que estava nessa tarde, etc. Torga fazia umas paragens, contemplando a parte antiga de Cascais, nessa altura ainda não destruída como hoje. [...]

Almada Negreiros
Ao chegarmos ao largo do Gil Vicente, surge o velho "carocha" Volkswagen acinzentado, com a figura simpática, extrovertida, simpática, sei lá... de Mestre Almada Negreiros [...] Torga deu o braço a Almada e entraram, na maior das boas disposições, no teatro.

João Vasco
Na sala de entrada do teatro havia uma certa desarrumação, pois todo o guarda-roupa, concebido por Almada, tinha ali sido concebido. Em cima de uma mesa estava a maqueta, construída pelo próprio Almada. Torga ficou deslumbrado e examinou com pormenorizada atenção, aquilo que viria, passados cerca de 15 minutos, a ver no palco.

Assisitram juntos a todo o ensaio. [...] Torga, no final, teve palavras muito simpáticas para todo o elenco e para o deslumbrante cenário do Mestre Almada. [..]
Teatro Gil Vicente
No dia seguinte, perguntei a Paula Almada Negreiros (filha do Mestre e de Sarah Affonso) por Torga: "Entrou no nosso carro, mal acomodado, e quis ficar junto da estação do Estoril, pois queria apreciar a paisagem até Lisboa ["]. Almada Negreiros seguiu para a sua casa de Bicesse. [..]»

João VASCO, «A propósito de Almada Negreiros e Miguel Torga em Cascais», Exposição Conjunta de Sarah Affonso e José de Alamada Negreiros em Cascais [catálogo], Cascais, Cãmara Municipal, 1996, pp. 21-22.
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