sábado, 22 de março de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e hitoriadores em Cascais (8)

Itinerário de Branquinho da Fonseca: da vila à serra, com terminal na Guia

João Gaspar Simões e António José Branquinho da Fonseca (Mortágua, 1905 -- Malveira da Serra, 1974) são dois nomes indissociáveis por razões culturais e percurso de vida, com encontros e desencontros que extravasam o âmbito deste artigo. Tendo já sido referida a revista presença, diga-se apenas que o seu percurso comum se iniciou uns anos antes, ainda nos bancos do liceu em Coimbra. (31) A acção e a presença de Branquinho da Fonseca em Cascais merecem, mais que um artigo, um estudo monográfico. A sua actividade como director do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães -- nomeado em 20 de Dezembro de 1941 e tomando posse a 2 de Janeiro seguinte --, a remodelação e o incremento que lhe deu em número de visitantes, o enriquecimento bibliográfico, a abertura da sala de arqueologia com o riquíssimo espólio das grutas de Alapraia, o arranjo do parque envolvente (32), o arejamento de mentalidades que o seu desempenho proporcionou, culminando com a instituição duma Biblioteca Itinerante que percorria os lugares mais recônditos do concelho -- experiência que, como se sabe, o escritor viria a desenvolver no país inteiro em consequência do convite que lhe fez a Fundação Calouste Gulbenkian para o efeito --, assinalam de forma exemplar a sua missão em Cascais.Licenciado em Direito, acumulava estas funções com a assessoria jurídica na Base Naval de Lisboa. (33)
Poeta e novelista, Branquinho da Fonseca entra na história da literatura como contista de técnica segura e autor de uma obra-prima, O Barão (1942), pelo menos ultimada em Cascais -- assegura-nos uma carta do escritor ao poeta Carlos Queirós, escrita da Rua Manuel Joaquim do Avelar, n.º 1, em 4 de Dezembro de de 1941 (34), vinte dias antes da sua nomeação como conservador do Museu, instalado na velha «Torre de São Sebastião» de Jorge O'Neill:
«Estes velhos palácios, quase abandonados, olho-os sempre, de longe, como um sonho de conforto, de intimidade e de bem-estar: de estabilidade na vida. Independência e sossego, possibilidade de fazer a vida como seja a nosso gosto! Um velho solar de paredes que tenham vivido muito mais do que eu, dessas paredes que têm fantasmas, e em volta um grande parque de velhas árvores, com recantos onde nunca vai ninguém. Viver o tumulto das grandes cidades e depois o silêncio, a solidão desses paraísos abandonados há muitos anos, onde entramos com não sei que inquietação, como quem desembarca numa ilha desconhecida... Ah! Isso, sim, é que me dava outras possibilidades de ser, de compreender, de ir pelo meu caminho.» (35)
Há muitos elementos sobre Branquinho da Fonseca em Cascais que ficarão para um eventual monografia a fazer-se. Neste escorço, refira-se apenas as moradas do escritor, depois do n.º 1 da «Rua do Avelar», residência dos sogros: a «Casa da Vinha Virgem», à Travessa Tenente Valadim, n.º 4 (36) e a «Casa dos 4 Moinhos», na Malveira da Serra, por si mandada edificar e onde viveria os seus últimos dias.
Um outro dado, por quase desconhecido, não pode deixar de ser aqui assinalado. Em pleno Estado Novo, no pós-guerra, quando a vitória dos Aliados obrigou Salazar a um simulacro de elições livres, permitindo a constituição de uma vasta frente de oposição: o Movimento de Unidade Democrática (MUD). Branquinho da Fonseca, apesar das funções públicas que exercia, não se eximiu a ser o organizador do MUD em Cascais, com todos os riscos que tal acarretou, de demissão, prisão ou exílio. (37)
Branquinho da Fonseca está enterrado, ao lado de sua mulher, no Cemitério da Guia (por coincidência, ao lado da campa dos bisavós de quem escreve estas linhas). Os descendentes são munícipes de Cascais.

Notas
(32) João Gaspar SIMÕES, José Régio e a História do Movimento da «presença», Porto, Brasília Editora, 1977 : 97.
(33) Branquinho da FONSECA, Relatório do Conservador do Museu Biblioteca do Conde de Castro Guimarães (1943), Cascais, Câmara Municipal, 1997.
(33) Informação prestada pelo seu filho, Tomás Branquinho da Fonseca.
(34) In Boletim Cultural, n.º 1, -VI série, Lisboa, Serviços de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1984 : 35-36.
(35) Branquinho da FONSECA, O Barão, 4.ª edição, Lisboa, Portugália editora, 1962 : 25-26.
(36) Informação de Tomás Branquinho da Fonseca.
(37) José Magalhães GODINHO, Pela Liberdade, Lisboa, Publicações Alfa, 1990 : 46.

4 comentários:

Sofia disse...

Mas quantos blogues tens tu?

Branquinho da Fonseca é-me muito especial e 'O Barão' que ele escreveu, ainda mais... um dia conto-te a história!

Gostei de saber estas curiosidades todas, estamos sempre a aprender!

beijinhos

RAA disse...

Olá Sofia. São vários, mas tenho pouco tempo para eles.
Também gosto muito do Branquinho da Fonseca, e não apenas como escritor. Fiquei curioso.
Outros para ti.

G u V i D u disse...

ao ler este artigo, já aprendi qq coisa.obrigada!

RAA disse...

Obrigado eu pela leitura! Ando cheio de preguiça para terminá-lo... Um destes dias.

 
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