RECORDAÇÃO
Quando eu era pequena
-- Nem mulher, nem criança: adolescente --
Sentia uma aversão forte e pungente
Por tudo o que era triste ou desse pena.
Não gostava de ouvir falar na morte
Nem de passar ao pé do cemitério:
A morte era pra mim grande mistério
E imaginava-a muito alta e forte...
Eu morava em Lisboa nessa altura
Mas tinha casa ao ano no Estoril,
E assim que começava o mês de Abril
Partíamos em busca de frescura.
Todo o fim de semana, sem excepção,
Ia toda a família descansar
Na pequenina casa à beira-mar:
Eu, meu Pai, minha mãe e o nosso cão.
O caminho mais rápido passava
Ao cemitério dos Prazeres; e eu
Para o não ver olhava para o céu
E para disfarçar ria e cantava...
Não era medo, não, o que eu sentia:
Eu era uma menina corajosa.
Mas nessa terra, triste e silenciosa,
Havia algo que eu não percebia.
Só hoje sei que essa aversão que eu tinha
Resultava da minha pouca idade:
Estuante de vida e mocidade
Achava a morte vil, feia e mesquinha...
Mas os anos correram e mudaram
Essa estranha maneira de sentir.
Hoje a recordação faz-me sorrir:
Foram já muito anos que passaram...
E quantas vezes eu fico a sonhar,
Num sonho sem calor, pungente e sério,
Que estou sozinha nesse cemitério
E que pra sempre lá quero ficar...
terça-feira, 26 de agosto de 2008
domingo, 17 de agosto de 2008
poesia de cascais #2 - Ruy Belo

Praia do Abano (ou outra praia)
Vejo subitamente recuares até à tua infância
cruzares ruas montras onde passo agora
e sofro sem remédio não haver saída
em minha vida que não seja a tua face
isenta dos meus olhos vista só por ti
A bola é louca, boca anónima infantil
Ó árvore plantada indiferente de cidade
à mesa onde amarro a minha vida
e corro sem correr para nenhum lugar
distante donde estou como se lá estivesse
A cara e o cansaço e os cilindros: prece
Tu és agora uma criança inacessível para mim
e em nenhum país alguma vez te vi
Estou de novo comigo e sofro levantado não haver ninguém
até que enfim deitado eu cumpra a minha condição
e não houve pessoa a que eu fizesse mal
Vejo subitamente recuares até à tua infância
cruzares ruas montras onde passo agora
e sofro sem remédio não haver saída
em minha vida que não seja a tua face
isenta dos meus olhos vista só por ti
A bola é louca, boca anónima infantil
Ó árvore plantada indiferente de cidade
à mesa onde amarro a minha vida
e corro sem correr para nenhum lugar
distante donde estou como se lá estivesse
A cara e o cansaço e os cilindros: prece
Tu és agora uma criança inacessível para mim
e em nenhum país alguma vez te vi
Estou de novo comigo e sofro levantado não haver ninguém
até que enfim deitado eu cumpra a minha condição
e não houve pessoa a que eu fizesse mal
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Rod Stewart no Paredão
No Paredão, Monte Estoril, com o secretário e o guitarrista Jim Cregan
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
poesia de cascais #1 - Fernando Pinto do Amaral

Onde estás, minha vida em câmara lenta,
janela toda aberta onde procuro
o vento, a luz da noite? Onde estarás,
melodia cantada a soluçar
numa cama de grades? Onde estás,
olhar dessas visões em sobressalto.
Casal da Bela Vista, velho pátio
ao som da bicicleta? Onde ficaste,
infinito terraço da Alameda,
varanda cor-de-rosa da Parede
com o sol a morrer sobre Cascais?
Onde estás, corredor de São Filipe,
praia do Monte Branco onde outro eu
se lançava da prancha? Onde estarão
os risos desses primos transparentes,
as lágrimas acesas que brilhavam
como arco-íris de seda no meu rosto?
Onde ficou a última pergunta
em véspera de viagem? Onde está
o mapa dessa alma que foi espuma,
o nó dessa garganta submersa?
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